terça-feira, 15 de agosto de 2017

Guerra das Falklands/Malvinas: Operações Especiais Executadas pelo SBS britânico no conflito do Atlântico Sul (Parte Final)

Texto elaborado por Rodney Alfredo P. Lisboa


Ilustração 4: Dupla de Mergulhadores Canoístas (Swimmer Canoeist [SC]) do Esquadrão Especial de Embarcações (Special Boat Squadron [SBS]) britânico compõem a tripulação de um caiaque durante uma incursão em ambiente ribeirinho. (Fonte: Composição artística elaborada por Rodney Alfredo P. Lisboa).  


Conquistada a soberania britânica nas ilhas Geórgia do Sul e na iminência da ação militar objetivando a retomada das Falklands, os comandantes da FT-317 ainda não dispunham de informações confiáveis em relação à quantidade, capacidade e disposição das tropas argentinas no território por elas ocupado. Ávidos por obter informações relacionadas ao inimigo e ao terreno, os comandantes britânicos resolveram enviar suas FOpEsp para realizar o reconhecimento das Falklands Ocidental e Oriental. Encobertos pela escuridão da noite do primeiro dia de maio, oito equipes Serviço Aéreo Especial (Special Air Service [SAS]) e Esquadrão Especial de Embarcações (Special Boat Squadron [SBS]) foram transportadas por via aérea (por helicópteros Sea King embarcados no Navio Aeródromo HMS Hermes) e marítima (por botes infláveis Gemini), desembarcando clandestinamente nas ilhas, onde permaneceram coletando e transmitindo informações até o final do conflito.
Os operadores SBS foram os primeiros militares britânicos a desembarcar nas Falklands com o objetivo de observar as posições argentinas e fazer o levantamento da área, reunindo informações que acabariam por se constituir no conjunto de dados de Inteligência mais importante para o planejamento da manobra de desembarque das tropas de assalto (Operação Sutton). Operando preferencialmente à noite e valendo-se de sua acurada aquacidade, seis equipes de Nadadores Canoístas (Swimmer Canoeists [SCs]) executaram inúmeras ações de reconhecimento acima e abaixo da superfície, arregimentando valiosos conhecimentos que serviram para determinar quais as praias mais adequadas para receber as tropas britânicas. Paralelamente às atividades de reconhecimento anfíbio, os operadores SBS transmitiam mensagens de rádio em espanhol no intuito de desestabilizar psicologicamente as tropas argentinas que guarneciam as ilhas.


Ilustração 5: Operador do SBS no decorrer da "Operação Sutton", marcada pelas manobras de desembarque das tropas britânicas nas ilhas Falklands/Malvinas. (Disponível em: ://photobucket.com/gallery/user/Bencejas1/media/cGF0aDovbWFsYXlzaWFuLXNvbGRpZXJzLTFfenBzc2RlajV1NTkuanBn/?ref= Acesso em: 14 ago. 2017).

Após minuciosa análise dos dados coletados nas praias da Falkland Oriental, os SCs sugeriram três praias como opção para o desembarque anfíbio: Port North; Port Stanley; San Carlos Water. Embora Port North e Port Stanley acomodassem bem a operação, ambas foram descartas por motivos distintos, incidindo a escolha em San Carlos Water, braço de mar que bifurca a norte e sul invadindo a Falkland Oriental. Entretanto, para que o desembarque ocorresse sem enfrentar grande resistência, foi necessário que 40 operadores do Esquadrão G do SAS destruíssem o grupo de 11 aviões, sendo seis aeronaves Pucará, localizados no campo de pouso argentino da Ilha Peeble. Com seu arsenal de ataque terrestre, os Pucará representavam uma séria ameaça ao empreendimento britânico.
A manobra de desembarque teve início na noite de 20 de maio, quando o Grupo Tarefa (GT) adentrou o estreito das Falklands. Enquanto isso, levando-se em conta que a surpresa era uma vantagem da qual as tropas de desembarque não poderiam prescindir, uma vez que o contingente britânico do GT era deficitário em relação a guarnição argentina das ilhas, equipes SAS e SBS, que realizavam operações encobertas no arquipélago a mais de duas semanas, realizaram uma ação diversionária em Port Darwin e Goose Green, localidades distantes das praias de desembarque. Na madrugada do dia seguinte, as tropas foram conduzidas para o povoado de San Carlos (Comando 40 dos Royal Marines e 2° Batalhão do Regimento de Paraquedistas do British Army), baía Ajax (Comando 45 dos Royal Marines) e Port San Carlos (3° Batalhão do Regimento de Paraquedistas do British Army), onde avançaram rapidamente a fim de estabelecer uma cabeça-de-praia, assegurando o desembarque das tropas que chegariam em seguida. Em Fanning Head, um contingente argentino que guarnecia a entrada de San Carlos Water, lançou mão de sua artilharia antiaérea para abater helicópteros britânicos. Em resposta à ação inimiga, 32 operadores SBS, transportados pelo Helicóptero Wessex do HMS Antrim próximo ao local, orientaram os disparos do Contratorpedeiro contra as posições argentinas que logo foram vencidas.
O avanço das tropas britânicas pelo acidentado terreno das Falklands em direção à Port Stanley (capital das ilhas) ocorreu de forma lenta e gradativa pelos flancos norte (passando pelo assentamento Goose Green) e sul (passando pelo assentamento Teal Inlet) entre os meses de maio e junho. Durante a progressão britânica pelos 92,5 km que separava os locais de desembarque de Port Stanley, os operadores do SBS envolveram-se em vários confrontos contra as tropas argentinas.


Fotografia 1: Operadores SBS e fuzileiros navais do Comando 148 após eliminar a resistência argentina que se opôs ao assédio britânico em San Carlos Water. (Fonte: Disponível em:. Acesso em: 14 ago. 2017).

A última ação do SBS na Guerra das Falklands ocorreu na noite de 13 para 14 de junho, como parte de uma ação diversionária que atrairia a atenção das tropas argentinas enquanto o 2° Batalhão do Regimento de Paraquedistas realizava o assédio a Wireless Ridge, cadeia de montanhas distante 8 km a oeste de Port Stanley. Na ocasião, um destacamento constituído por três equipes do Esquadrão D do SAS acrescido de seis operadores SBS, executou uma ousada ação diversionária em Howdern Water. Utilizando quatro lanchas pneumáticas de casco rígido para atacar uma base logística próxima à capital do arquipélago, a força atacante enfrentou forte oposição assim que abicou na praia. Fundeado muito próximo da costa, o Navio de Assistência Hospitalar (NAsH) argentino ARA (Armada de la República Argentina) Bahia Paraiso, embora proibido pela Convenção de Genebra de participar de ações de combate, abriu fogo contra as FOpEsp britânicas. Em apoio ao NAsH, a guarnição da base logística também disparou contra os atacantes. Sem alternativas, os operadores foram forçados a se evadirem do local trocando fogo com os tripulantes da embarcação. Embora as quatro lanchas estivessem praticamente destruídas, para os britânicos o saldo foi de apenas três operadores feridos.
Após intenso ataque aéreo administrado pela Real Força Aérea (Royal Air Force [RAF]) no dia 14 de junho, as tropas britânicas avançaram cautelosamente pelas ruas de Port Stanley, procurando por eventuais focos de resistência. À medida que as unidades britânicas se deslocavam pela capital, ficou evidente que os argentinos haviam desistido de combater. Finalmente, na noite daquele mesmo dia, o comandante da força terrestre britânica, Major-General Jeremy Moore, aceitou os termos de rendição das tropas argentinas.




quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Guerra das Falklands/Malvinas: Operações Especiais Executadas pelo SBS britânico no conflito do Atlântico Sul (Parte 1)

Texto elaborado por Rodney Alfredo P. Lisboa


Ilustração 1: Composição artística utilizando o emblema do Serviço Especial de Embarcações (Special Boat Service [SBS]), tropas especial do Real Corpo de Fuzileiros Navais britânico (Royal Marines) que na época da Guerra das Falklands (1982) era denominado Esquadrão Especial de Embarcações (Special Boat Squadron). (Fonte: Disponível em: https://special-ops.org/sof/unit/special-boat-service-united-kingdom/ Acesso em: 1 ago. 2017).

Localizadas na região sul do oceano Atlântico, a cerca 740 km a leste do território argentino e a aproximadamente 12.000 km ao sul do Reino Unido, as ilhas Falklands (denominação britânica do arquipélago conhecido pelos argentinos como Malvinas) constituem território britânico ultramarino cuja soberania é historicamente contestada pelo governo de Buenos Aires.
Arquipélago formado por duas ilhas principais (Falkland Ocidental/Grande Malvina e Falkland Oriental/Soledad) e várias ilhas menores, esse conjunto de ilhas possui uma relação histórica secular com a Grã-Bretanha. No século XVII, o navegador britânico John Strong desembarcou e tomou posse das ilhas do Atlântico Sul, as quais batizou com o nome do Visconde de Falkland, responsável por patrocinar àquela expedição naval. Durante o século XVIII, quando as rotas de comércio internacional eram realizadas exclusivamente por mar, os britânicos mostravam-se particularmente interessados em valer-se da estratégica posição geográfica do arquipélago localizado nas proximidades do Estreito de Drake, que até a abertura do Canal do Panamá (inaugurado em 1914) representava a única passagem que interligava os oceanos Atlântico e Pacífico.
O período entre 1764 e 1771 foi marcado por intensas disputas territoriais entre espanhóis e britânicos, que ocupavam a Falkland Oriental e a Falkland Ocidental respectivamente. O impasse terminou com os espanhóis aceitando a presença britânica na ilha situada a Oeste, enquanto Londres reconheceu a autoridade espanhola no arquipélago. No século XIX, com o advento da Guerra de independência das Provinciais Unidas do Prata (1810-1818), Londres concluiu que a autoridade espanhola no arquipélago havia terminado. Por sua vez, o governo de Buenos Aires, acreditando ter herdado o arquipélago dos espanhóis, requeria a soberania das ilhas para a nação argentina. Em 1828, tomando a iniciativa de proclamar sua autoridade em relação às ilhas, os argentinos estabeleceram um assentamento de colonos no local. Em resposta à ação argentina, os britânicos fazem valer sua posição de forma definitiva, expulsando os colonos sul-americanos entre 1831-1832, e passando a exercer sua soberania no arquipélago desde 1833.
No decorrer do século XX, a Argentina passou a requerer a soberania do arquipélago de forma mais veemente, colocando a questão junto aos organismos internacionais como um problema relacionado à identidade da nação. Para o governo militar instituído em 1976, recuperar a soberania das ilhas representava uma estratégia política, que entre outros objetivos, daria sustentação ao regime.   


Ilustração 2: Mapa das ilhas Falklands/Malvinas Ocidental e Oriental. (Fonte: Disponível em: https://guerraearmas.wordpress.com/2014/06/page/2/ Acesso em: 1 ago 2017).

Em 1982, decididos a resolver o problema das Falklands, o triunvirato militar composto pelo General-de-Divisão Leopoldo Fortunato Galtieri Castelli, Contra-Almirante Jorge Isaac Anaya e Brigadeiro-General Basilio Lami Dozo, que respondiam pelo governo argentino, certos de que contariam com apoio dos EUA em virtude da excelente relação existente entre Washington e Buenos Aires, optaram por colocar em prática a operação de invasão (denominado Plano Goa) desenvolvida ainda na década de 1960.
Em março de 1982, o navio de transporte argentino Bahia Buen Suceso atracou no porto de Leith nas ilhas Geórgia do Sul, território de possessão britânica distante cerca de 1.280 km das Falklands, com o pretexto de desembarcar um grupo de 42 trabalhadores que removeriam os restos de uma estação baleeira abandonada de propriedade do empresário argentino Constantino Davidoff. Sem se preocupar em obter autorização para realizar tal empreendimento, o grupo tomou a iniciativa de erguer a bandeira Argentina ao som do hino nacional.
Informado pelo embaixador britânico que o evento sucedido nas ilhas Geórgia do Sul violava a soberania britânica na região, o governo argentino mostrou-se solidário a seus compatriotas e manifestou sua intenção de protegê-los. Ainda no decorrer de março, sob alegação de realizar manobras navais com a Marinha Uruguaia nas proximidades de Ushuaia, uma significativa força naval argentina partiu da Base Naval Puerto Belgrano em direção às Falklands. A invasão das ilhas, levada a cabo sob codinome “Operação Rosário”, realizou seu intento sem grandes dificuldades, subjugando a pequena guarnição de 68 Royal Marines responsável por prover a defesa do arquipélago, capturando e prendendo o governador Rex Hunt posteriormente.
A ocupação das ilhas Falklands pela Marinha Argentina (Armada de la República Argentina [ARA]) causou grande comoção entre a opinião pública britânica, que acusava o governo conservador da primeira-ministra Margaret Thatcher de negligenciar a segurança dos kelpers (habitantes locais de origem majoritária britânica) e ignorar as evidências de uma invasão iminente. Com a crise política instalada, a premiê britânica autorizou uma resposta militar imediata, que seria levada a cabo com a denominação “Operação Corporate”. Nesse contexto, a Força-Tarefa 317 (FT-317), composta por 30 navios de guerra e uma força expedicionária composta por milhares de homens, foi enviada para o Atlântico Sul em abril.
A FT-317, juntamente com os Navios-Aeródromo (NAe) HMS Hermes e HMS Invincible, atracaram na ilha de Ascenção, território de possessão britânica situado na região central do Atlântico (distante 7.400 km das Falklands), que seria transformada em uma base avançada para o abastecimento do contingente militar que combateu as forças argentinas enquanto durou o conflito.
O componente militar britânico responsável pela retomada do arquipélago das Falklands era formado por um corpo expedicionário constituído de 28.000 homens, uma força aeronaval formada por 33 navios de combate, 60 navios mercantes utilizados para transporte, além de uma centena de aeronaves de asa fixa e rotativa. A ponta de lança das forças terrestres era composta por 9.500 soldados divididos em duas brigadas: 3ª Brigada de Comandos (Royal Marines e Paraquedistas) e a 5ª Brigada de Infantaria. As Forças de Operações Especiais (FOpEsp), compostas pelo Serviço Aéreo Especial (Special Air Service [SAS]) e Esquadrão Especial de Embarcações (Special Boat Squadron [SBS], atual Special Boat Service), operavam incorporadas à essas duas brigadas.
A primeira ação da qual o SBS tomou parte no conflito contra as forças argentinas em 1982 foi a retomada das ilhas Geórgia do Sul, localizadas a cerca de 1.440 km a leste das Falklands. Levada a efeito entre 21 e 26 de abril, o desembarque das tropas britânicas, realizado sob codinome “Operação Paraquat”, foi organizado a partir do reconhecimento marítimo conduzido por meio submarino (pela embarcação de propulsão nuclear HMS Conqueror), e aéreo (pelo avião-tanque Handley Page “Victor” adaptado para executar reconhecimento fotográfico). Confirmada a ausência de navios de guerra argentinos no entorno das ilhas Geórgia do Sul, no dia 20 de abril um avião Hércules C-130 partiu da ilha de Ascenção transportando 12 operadores SBS, que desembarcaram da aeronave em pleno voo saltando de paraquedas. Após pousarem na água, os SCs embarcaram no Submarino convencional (propulsão diesel-elétrico) HMS Onyx que estava navegando em direção às ilhas alvo.


Ilustração 3: Operador da Seção  N° 2 do SBS durante operação de incursão nas ilhas Geórgia do Sul objetivando a retomada do território ocupado por tropas argentinas. (Fonte: Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/21814379423062347/ Acesso em: 1 ago. 2017).

Neste ponto, é necessário relacionar o contingente militar britânico que compunha o Grupo-Tarefa (GT) destacado para a retomada das ilhas Geórgia do Sul: Contratorpedeiro (CT) HMS Antrim acrescido de um helicóptero Wessex embarcado; Fragata (F) HMS Plymouth acrescida de um helicóptero Wasp embarcado; Fragata (F) HMS Brilliant acrescida de um helicóptero Lynx embarcado; Navio de Patrulha (NPa) Antártica HMS Endurance acrescido de dois helicópteros Wasp embarcados; Navio-Tanque (NT) RFA Tidespring acrescido de dois helicópteros Wessex embarcados; Esquadrão D do SAS; Seção N° 2 do SBS; Companhia M do Comando 42 dos Royal Marines.
As condições adversas do local, com ventos fortes, mar agitado, baixa temperatura e pouca visibilidade, impossibilitaram a ação inicial do SBS, a ser desempenhada durante a noite do dia 22 de abril por Nadadores Canoístas (Swimmer Canoeist [SC]) tripulando botes infláveis de assalto “Gemini” (seis homens por embarcação). As tempestades características da região lançaram farpas de gelo que perfuraram as embarcações, impossibilitando a incursão que teria a área de Sorling Valley como objetivo final.
No dia 24, empregando o helicóptero Lynx, da Fragata HMS Brilliant, um destacamento de operadores SBS desembarcou clandestinamente na região do Fiorde Moraine, ocupando posições estratégicas que lhes serviriam como postos de observação das atividades inimigas visando a orientação das forças de assalto britânicas que desembarcariam posteriormente nas ilhas Geórgia do Sul.
No dia seguinte, valendo-se do impacto psicológico de ter inutilizado o submarino argentino ARA Santa Fe, detectado na madrugada daquele mesmo dia, os britânicos anteciparam a invasão reunindo um grupamento composto pelos Royal Marines embarcados no CT Antrim, nas Fs Brilliant e Plymouth, além de operadores SAS e SBS, que foram transportados de helicóptero para a região de Hestesletten, nas proximidades de Grytviken. Após sucessão de fogo naval disparado pelo Antrim e pela Plymouth contra as posições argentinas, o destacamento britânico avançou sem enfrentar resistência, aceitando a rendição da guarnição de Grytviken no dia 25. A guarnição de Leith rendeu-se na manhã seguinte, data em que a Union Jack (bandeira da Grã-Bretanha) e a White Ensign (pavilhão de combate da [Real Marinha britânica [Royal Navy]) foram hasteadas simbolizando a retomada das ilhas Geórgia do Sul pelo Reino Unido.


Continua...


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Arquivo Histórico FOpEsp nº 4: ACADEMI operando sob contrato de proteção e segurança no Iraque (2013)

Texto e arte elaborados por Anderson Subtil*.


Empresa Militar Privada (PMC) ACADEMI 
ACADEMI Private Military Company 


Fundada em 1997 por Erick Dean Prince (ex-oficial dos SEALs da Marinha dos EUA), a ACADEMI é uma Empresa Militar Privada (Private Military Company [PMC]) que atua ao redor do mundo prestando serviços de segurança para o governo norte-americano. A ACADEMI apresenta ume estrutura organizacional que disponibiliza uma divisão especifica para cada uma de suas áreas de atuação: Divisão de Aviação (Aviation Wordwide Services [AWS]); Divisão de Serviços de Suporte e Treinamento (Greystone Limited); Divisão de Gerenciamento de Risco e Consultoria (Total Intelligence Solutions [TIS]).
Entre 1997 e 2009 a empresa operava valendo-se de sua denominação original (Blackwater), quando, por ocasião da deflagração da Guerra Global contra o Terrorismo (Global War on Terrorism [GWOT]) instituída pelo presidente George W. Bush em resposta aos atentados de 11 de setembro de 2001, a empresa ganhou grande notoriedade por ocasião dos contratos assumidos em favor do governo estadunidense.
Em janeiro de 2007 a Blackwater envolveu-se em uma grande polêmica, quando uma equipe de contractors a serviço da empresa e sob contrato do Departamento de Estado dos EUA, provendo a segurança de um comboio diplomático norte-americano pelas ruas de Bagdá (Iraque), matou 17 civis de origem iraquiana ferindo outras 20 pessoas, no episódio que ficou conhecido como “O Massacre da Praça Nisour”.
Na tentativa de desvincular sua atividade de prestação de serviços de segurança privada ao à ocorrência da praça Nisour por ocasião da publicidade negativa, em 2009 a empresa promoveu uma estratégia de reestruturação que alterou nome seu nome corporativo para Xe Services.
Adquirida em 2010 por um grupo privado de investidores, que optou por substituir toda cúpula administrativa, a empresa teve sua designação alterada novamente, sendo rebatizada com o nome ACADEMI. Durante a administração do presidente Barack Obama (2009-2017), a empresa permaneceu ofertando seus serviços para o governo estadunidense, contratada para operar em favor da Agência Central de Inteligência (Central Intelligence Agency [CIA]).


Contractor à serviço da ACADEMI durante ação levada à efeito no Iraque em 2013, onde opera com o objetivo de proteger as instalações de uma empresa petrolífera. (Ilustração: Anderson Subtil, para a seção "Arquivo Histórico FOpEsp").

Este operador privado, provavelmente um ex-integrante das Forças Especiais norte-americana, desdobrado em alguma parte do Iraque para proteger as instalações de uma empresa de exploração, produção, refino, transporte e comercialização de petróleo e gás natural, veste camiseta e calças civis, embora de clara inspiração militar. Na cabeça trás um boné Nike com a bandeira dos EUA e em volta do pescoço usa o tradicional shemagh (lenço árabe). Outro item civil são os confortáveis tênis de caminhada. Protegendo as mãos e joelhos ele usa luvas táticas e joelheiras, respectivamente, ambos acessórios da marca Oakley. A proteção balística fica por conta do colete com placas de cerâmica integradas, sobre o qual estão o cantil tipo Camelback, o rádio, estojos para os carregadores, além de várias outras bolsas para utilidades. Sobre o peito, alem das marcações com seu tipo sanguíneo, ele utiliza o distintivo do sua equipe de baseball (Cleveland Indians). Ao cinto estão presos o coldre para sua pistola, uma Glock 17 de 9mm Parabellum, a bolsa para a máscara de gás, bem como um estojo de primeiros socorros. Sua arma principal é um moderno fuzil G-36C Commando, fabricado pela renomada empresa alemã HK, dimensionado para o calibre 5,56mm OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), equipado com empunhadura dianteira vertical e um visor holográfico EOtech.

Materiais utilizados na confecção da ilustração: A técnica utilizada para o desenho do contractor é mista, sendo utilizadas canetas especiais, rotuladores e aquarelas, aplicados sobre papel triplex 180. A caveira (referência ao personagem Justiceiro [Punisher] das histórias em quadrinhos editadas pela Marvel Comics) e a logomarca da empresa foram incorporados ao desenho por Computação Gráfica (tratamento em CorelDraw).



* Anderson Subtil é natural de Curitiba-PR, onde estudou na Escola de Música e Belas-artes do Paraná. Trabalha como Artista Gráfico, Arte Finalista e Produtor Gráfico, tanto no mercado editorial quanto na indústria gráfica. Atua, paralelamente, como pesquisador autodidata de assuntos militares e de Defesa, com especial interesse na história da Segunda Guerra Mundial, tropas de relevância histórica e unidades especiais. Compõe o grupo de colaboradores das revistas Tecnologia e Defesa e Tecnologia e Defesa  Segurança, respondendo ainda pela correspondência da afamada revista Espanhola Soldiers RAIDS no Brasil. 





segunda-feira, 24 de julho de 2017

Ação do DEVGRU da Marinha dos EUA em Ocorrência de Pirataria Marítima: Estudo de Caso

Adaptação de artigo publicado por Rodney Alfredo P. Lisboa na Revista Brasileira de Estudos Estratégicos, v. 8, n. 15, jan./jun. 2016, p. 33-56.

Fotografia 1: Cena do filme "Capitão Phillips" (2013) retratando os quadros operacionais do Grupo de Desenvolvimento de Guerra Especial Naval (Naval Special Warfare Development Group [DEVGRU]) observando o bote de resgate do Maersk Alabama a partir da popa do Contratorpedeiro USS Bainbridge DDG-96. (Fornte: Disponível em: http://www.thecodeiszeek.com/2013/10/captain-phillips-on-somali-tides.html Acesso em: 24 jul. 2017).

Na manhã quente e abafada de uma quarta-feira, dia oito de abril de 2009, o navio porta-contêineres MV Maersk Alabama navegava as águas tranquilas do Golfo de Áden, no Oceano Índico. Construída na China em 1999, a embarcação de bandeira norte-americana flutuava suas 14.120 toneladas (acrescida das 17 mil toneladas de carga) a cerca de 300 milhas (482km) da costa da Somália pela rota marítima conhecida como EAF4 (rota marítima que partindo de Salalah [Omã] passava por Djibuti [República do Djibuti] chegando até Mombaça [Quênia]).
Empilhada junto a uma infinidade de bens de consumo acondicionados em 1.092 contêineres de seis metros de comprimento, parte da carga transportada pelo navio era composta por suprimentos do Programa Mundial de Alimentos da Organização das Nações Unidas (ONU), destinados a combater a fome em países como Ruanda, Uganda e Congo.
Por volta das 07:00hs um dos 23 tripulantes do navio mercante observou a rápida aproximação de um pequeno barco, distante 3,1 milhas (4,9km) da popa do porta-contêineres a uma velocidade de 20 nós (37km/h). Imediatamente ele informou a ocorrência ao Capitão Richard Phillips, que ordenou à tripulação lançar mão de um conjunto de medidas defensivas antipirataria: a embarcação começou a executar manobras em ziguezague; as mangueiras que circundavam os 155 metros do casco foram abertas (despejando ininterruptamente jatos d`água com 100 libras de pressão por polegada quadrada); as grades que davam acesso ao passadiço e a casa de máquinas foram baixadas e trancadas; o Sistema de Alerta de Segurança do Navio (Ship Security Alert System [SSAS]), que operava via satélite, foi acionado para alertar os Centros de Coordenação de Salvamento sobre a situação de emergência; foi estabelecido contato com o Controle de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (United Kingdom Maritime Trade Operations [UKMTO]) para reportar a iminência da abordagem de elementos adversos.
A velocidade máxima de 18 nós (33km/h) não foi suficiente para que o navio cargueiro se desvencilhasse do cerco imposto pelos piratas somalis. Em poucos minutos a pequena embarcação posicionou-se a contrabordo do Maersk Alabama enquanto os invasores ascendiam pelos seis metros do costado esquerdo valendo-se de uma rústica escada improvisada. Passados mais alguns minutos, dois dos quatro piratas, portando armas automáticas (fuzis AK-47), forçaram a entrada no passadiço alardeando sua intenção de tomar a embarcação e seus tripulantes como reféns. Considerando a série de eventos ocorridos entre o instante em que o barco pirata foi visualmente identificado, com o momento em que a tripulação foi subjugada, o intervalo de tempo que durou toda a ação não durou mais que 35 minutos.  
Por volta das 19:00hs, após um dia estressante de muito calor e tensão, temendo uma ação militar por parte dos EUA e vendo frustrada sua iniciativa de controlar o navio para conduzi-lo até a Somália, uma vez que o controle da embarcação havia sido transferido para a praça de máquinas durante a confusão estabelecida no momento em que ocorria a abordagem, os piratas decidiram abandonar o navio levando trinta mil dólares que permaneciam guardados no cofre para serem usados em caso de necessidade. Intencionados a exigir uma vultuosa soma em dinheiro como forma de resgate, os somalis tomaram o Capitão Phillips como refém, lançando-se ao mar em um dos botes de resgate embarcados no Maersk Alabama.  

Fotografia 2: Navio porta-contêineres MV Maersk Alabama deixando o porto de Mombasa (Quênia) em 2009. (Fonte: Disponível em: http://nypost.com/2013/10/13/crew-members-deny-captain-phillips-heroism/ Acesso em: 24 jul. 2017).

A incapacidade do governo somali de combater a atividade pirada em suas águas jurisdicionais, levou o Conselho de Segurança da ONU, através da resolução 1.816 de 2008, a liberar as águas sob soberania somali para intervenção de Estados que, cooperando com o governo de transição da Somália, tencionassem reprimir a pirataria na região. Em janeiro de 2009, mediante autoridade estadunidense e em estreita relação com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a Força Tarefa Combinada 151 (Combined Task Force 151 [CTF-151]) foi constituída para combater a pirataria na costa da Somália e no Golfo de Áden.
Afastado cerca de 30 milhas (48km) da costa da Somália, o bote de resgate passou a navegar em direção ao litoral assim que se afastou do Maersk Alabama. Após o lançamento do bote de resgate, tendo embarcado um destacamento de 18 fuzileiros navais (Marines), o Maersk Alabama deixou a área em direção a Mombasa.
Amedrontado no interior do pequeno barco confeccionado de fibra de vidro, medindo 9,28m de comprimento por 3,63 de altura, o capitão Phillips, submetido ao calor sufocante da África Oriental, era constantemente hostilizado pelos quatro piratas somalis. Por volta das 02:00hs do dia nove de abril, o bote de resgate foi iluminado pelos holofotes do Contratorpedeiro USS Bainbridge (DDG-96), um dos navios componentes da CTF-151. Outros dois navios de guerra norte-americanos situados no Golfo de Áden, a Fragata USS Halyburton (FFG-40) e o Navio de Assalto Anfíbio USS Boxer (LHD-4), foram mobilizados para oferecer apoio à operação de resgate. Após estabelecer contato pelo rádio, o capitão Frank Castellano, comandante do Bainbrigde, iniciou as tratativas de negociação valendo-se de um interprete somali. Castellano foi informado das condições do refém, do valor exigido como resgate (dois milhões de dólares), além de obter permissão para enviar mantimentos para o bote de resgate. 
Em Washington, o presidente Barack Obama, aconselhado por seu staff, autorizou uma operação militar em pequena escala após avaliar a situação de crise. Na sexta-feira, um destacamento do Grupo de Desenvolvimento de Guerra Especial Naval (Naval Special Warfare Development Group [DEVGRU]), também conhecido como Equipe Seis do SEAL (SEAL Team Six), foi desdobrado de sua base, localizada no estado norte-americano da Virginia para, a costa da Somália. Viajando no compartimento de carga de uma aeronave Boeing C-17, os quadros operacionais do DEVGRU executaram uma infiltração aérea, saltando de paraquedas além da linha do horizonte para não serem observados pelos sequestradores. Pousando na água, eles rapidamente subiram a bordo de duas Lanchas Pneumáticas de Assalto (Rigid Hull Inflatable Boat [RHIB]), também lançadas do C-17, de onde partiram ao encontro do USS Boxer.

Ilustração 1: Emblema do DEVGRU, unidade especializada em ações de contraterrorismo da Marinha norte-americana. (Fonte: Disponível em: http://militaryinsignia.blogspot.com.br/2012/06/us-navy-seals-original-patches-of.html Acesso em: 24 jul. 2017). 

Na tentativa de se aproximar da costa somali, os piratas evitaram desembarcar em praias que não estivessem sob o controle do clã ao qual pertenciam, esse esforço adicional esgotou o combustível do bote de resgate deixando-o à deriva. A partir de então, atendendo a uma sugestão do comandante Castellano, os sequestradores concordaram que o bote fosse rebocado pelo Bainbridge. Eles concordaram também que um de seus companheiros fosse levado a bordo do contratorpedeiro para receber cuidados médicos.
No sábado, uma parcela dos SEALs alocados no Boxer (uma equipe de assalto, algumas equipes de atiradores de elite [sniper e observador], além de um componente de comando) foi transferida para o Bainbridge. Assim que desembarcaram no contratorpedeiro, os SEALs assumiram o comando tático da operação. Coube aos snipers a tarefa de revezarem-se em turnos de vigilância no balanço de popa do contratorpedeiro, informando o componente de comando sobre os eventos que ocorriam no bote de salvamento enquanto aguardavam uma eventual ordem de execução de tiro. O grupo que permaneceu no Boxer deveria manter-se em prontidão, preparando-se para uma ação de resgate caso os sequestradores conseguissem desembarcar em território somali.
Devido ao eficiente trabalho interagências, informações relacionadas ao clã de origem e identidade dos sequestradores foram disponibilizadas para os responsáveis pela negociação. Até o levantamento feito pela Agência Central de Inteligência (Central Inteligence Agency [CIA]) na Somália, os dados relacionados aos piratas eram completamente desconhecidos.
No interior do bote, a tensão aumentava devido ao estresse provocado pelo calor, pelo longo tempo de confinamento, bem como pelo conjunto de medidas psicológicas adotadas pela Marinha com o propósito de minar o ímpeto e a resistência dos sequestradores. À noite, enquanto o bote de resgate era rebocado pelo Bainbridge, o cabo que ligava ambas embarcações era lenta e gradativamente recolhido, a fim de estabelecer uma distância entre as embarcações que favorecesse a ação dos snipers.
Na manhã de domingo, estando o capitão Phillips em situação de perigo iminente, com o bote de resgate a uma distância de 33m da popa do contratorpedeiro, os snipers reportaram condições favoráveis de disparo para o comando da operação. Precisamente às 7:19hs, com o trio de alvos em condição de “luz verde” (condição na qual um alvo encontra-se devidamente enquadrado no retículo de mira do dispositivo ótico de uma arma de precisão, indicando uma situação favorável para que o disparo seja realizado), foram realizados três disparos coordenados (sincronizados) e precisos. Dois dos piratas foram alvejados quando postaram-se junto à popa, do lado de fora do bote de salvamento, enquanto o terceiro recebeu o tiro fatal no momento em que fez aparecer sua cabeça em uma das diminutas janelas de observação distribuídas na parte superior da embarcação. Após cerca de 85 horas mantido em cativeiro sob condições extremas, Richard Phillips estava livre dos sequestradores que o ameaçaram. 

Ilustração 2: Concepção artística demonstrando a ação dos snipers do DEVGRU  em decorrência da operação de resgate do Capitão Richard Phillips. (Fonte: Disponível em: http://oliviaemisar.blogspot.com.br/2011/10/war-on-terror.html Acesso em: 24 jul. 2017). 

Sobre o tiro de precisão executado no mar é imperioso esclarecer que o denominado “tiro de comprometimento” (efetuado de forma letal) nem sempre é um objetivo alcançável devido à complexidade que envolve o tiro de precisão nesse tipo de ambiente. Nesse sentido, a realização de mais de um disparo para acertar o alvo pode ser necessária, motivo pelo qual armas semiautomáticas são desejáveis, uma vez que os armamentos de repetição (cuja ação manual para alimentar a câmara ejetando o estojo vazio utilizado caracteriza os fuzis de precisão) seriam lentas para ações dessa ordem (mas jamais dispensáveis).
Especificamente no caso da ação conduzida pelo DEVGRU em decorrência do resgate do capitão Phillips, a execução de disparos sequenciais não era recomendável, uma vez que o som produzido pelo primeiro tiro poderia originar a pronta reação dos outros sequestradores colocando a vida do refém em risco. Assim, coube aos snipers a intrincada tarefa de coordenar três disparos sincronizados de modo a neutralizar três ameaças distintas ao mesmo tempo.
Na situação em que se encontravam, os SEALs embarcados no Bainbridge estavam distribuídos em uma plataforma móvel monitorando alvos em outra plataforma também móvel. Nessas condições, além das variáveis características da balística externa (distância do alvo, velocidade do vento, umidade e resistência do ar) outras variáveis fundamentalmente importantes devem ser consideradas, entre elas: a manobrabilidade do navio, as vibrações oriundas da embarcação, além do estado do mar, que devido à sua inconstância permite uma superfície instável que dificulta a precisão do disparo, requerendo elevado nível de flexibilidade e improviso por parte do atirador.

video
Vídeo 1: Reprodução do "triplo" tiro de comprometimento executado de forma coordenada e sincronizada pelos snipers do DEVGRU para eliminar a ameaça representada pelos três piratas somalis que mantinham o capitão do Maersk Alabama como refém.




segunda-feira, 17 de julho de 2017

Informativo FOpEsp, nº 18

Publicação de Artigo


Figura 1: Dupla de Mergulhadores de Combate (MECs) da Regia Marina (Real Marinha Italiana), montados em um Veículo de Transporte de Mergulhadores (denominado Maiale [Porco]) adaptado a partir de um torpedo de 533mm, penetram as defesas do porto da cidade egípcia de Alexandria em dezembro de 1941. (Fonte: Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/356910339200714193/Acesso em: 17 jul. 2017).


Informo a todos os seguidores do blog FOpEsp que a Revista Segunda Guerra Brasil (publicada em formato digital) lançou, em sua última edição nº 5, (p. 20-29), um artigo de minha autoria com o título:


"Sabotagem sob as Ondas: investida dos Mergulhadores de Combate da Regia Marina contra portos sob autoridade britânica no Mediterrâneo durante a Segunda Guerra Mundial"

O texto refere-se à ação desencadeada pelos quadros operacionais da Xª MAS (10ª Flotilha de Meios de Assalto), unidade de elite da Real Marinha Italiana, promovendo a sabotagem de embarcações britânicas atracadas no porto de Alexandria (Egito) com a finalidade de restabelecer a liberdade de navegação dos navios de bandeira italiana na região.

Acesse a revista gratuitamente pelo link:

Acesse o site e compre a edição em PDF:


Fotografia 1: Capa da edição nº 5 da Revista Segunda Guerra Brasil. (Fonte: Acervo da Revista Segunda Guerra Brasil).




terça-feira, 11 de julho de 2017

Perfil do Militar/Policial de Elite: O Desafio de Detectar Indivíduos com Aptidão para o Desempenho das Atividades de Operações Especiais

Texto elaborado por Rodney Alfredo P. Lisboa

Fotografia 1: Operador das Forças Especiais do Exército norte-americano. (Fonte: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=sdSNuWOAleE Acesso em: 10 jul. 2017).

Recentemente, quando trocava mensagens com operadores de um grupo de WhatsApp do qual faço parte, surgiu uma questão que demandou bastante tempo de conversa sem que chegássemos a um parecer conclusivo. Na ocasião dessa confabulação, o assunto central versava sobre o perfil do Elemento de Operações Especiais (ElmOpEsp), e a pergunta que norteava nossa discussão indagava: Qual o perfil do profissional que opera em unidades militares e/ou policiais de elite? Embora não tenhamos conseguido estabelecer uma opinião consensual acerca do tema, uma preocupação comum aos debatedores daquele grupo referia-se, especificamente, à efetividade dos processos de seleção de ElmOpEsp no que concerne à capacidade de identificar os indivíduos que, de fato, reúnem o conjunto de atributos necessários para desempenhar atividades militares/policiais de natureza não convencional. Como pesquisador que se dedica investigar o universo que permeia as Operações Especiais (OpEsp), a falta de elementos que permitiam elucidar essa questão gerou certa frustração, fato que fez com que me debruçasse sobre o assunto na tentativa de encontrar respostas que possibilitem uma melhor compreensão sobre essa problemática. 
A princípio é fundamentalmente importante esclarecer sobre as particularidades que distinguem as OpEsp das operações militares/policiais convencionais. Consideradas de forma bastante genérica, são consideradas OpEsp as ações conduzidas por forças militares/policiais especialmente organizadas, adestradas e equipadas, com a finalidade de alcançar objetivos específicos valendo-se de métodos que fogem ao padrão regular empregado por tropas convencionais. Consideradas em âmbito militar, as OpEsp constituem ações não ortodoxas, realizadas por tropas com elevado nível de aprestamento, realizadas em tempo de paz, de conflito e/ou crise, de forma aberta, sigilosa ou coberta, buscando a consecução de objetivos políticos, econômicos, psicossociais ou militares relevantes. Por sua vez, na esfera policial, as OpEsp tratam de ações que extrapolam o padrão operacional rotineiro, valendo-se de pessoal e material (armas e equipamento) diferenciados, conduzidas em ambientes diversos (rural e/ou urbano), buscando a solução de ocorrências críticas de forma técnica, ética e legal.


Fotografia 2: Alunos do Curso de Operações Especiais ICOESP) ministrado pelo COE (Comandos e Operações Especiais) da Polícia Militar do Paraná (PMPR). (Fonte: Acervo do COE da  PMPR).

Conforme é possível observar, guardadas as diferenças existentes entre ambas atividades, tanto no contexto militar quanto no policial, as OpEsp estão diretamente relacionadas à solução de situações de risco elevado. Assim sendo, mostram-se aptos para o desempenho de tarefas dessa ordem indivíduos que, somando ao domínio da técnica, reúnem o conjunto de atributos humanos (físicos, psicológicos, intelectuais e morais) que os capacitam a lidar de forma eficiente com eventos cuja criticidade os coloca sistematicamente à prova.
No Brasil as particularidades culturais de uma sociedade pouco familiarizada com as questões de Defesa e Segurança, precariamente identificada com as Forças Singulares (Exército, Marinha e Força Aérea) e Auxiliares (Polícias Federal, Rodoviária Federal, Militar e Civil), representam um entrave significativo para atrair a categoria ideal de pessoas dotadas com o rol de predicados necessários para compor as Forças de Operações Especiais (FOpEsp). Em um cenário marcado pelo desinteresse e pela desinformação, voluntariam-se para os programas de seleção e treinamento das unidades militares e policiais de elite pessoas com perfis diversos: homens fascinados pelo estereótipo do “super-soldado” explorado pela indústria do cinema, da TV e/ou do vídeo game, indivíduos viciados nas elevadas cargas de adrenalina (hormônio secretado pelo organismo que funciona como um estimulante natural) que caracterizam atividades potencialmente arriscadas, sujeitos interessados apenas em ostentar um brevê para se vangloriarem do mérito de terem cumprido com os requisitos de um rigoroso programa de formação OpEsp. Assim sendo, pessoas conscientes de suas reais capacidades em relação às demandas dos respectivos programas, além de bem informadas acerca das exigências que lhe serão requeridas pelas atividades OpEsp, candidatam-se aos processos seletivos como uma exceção à regra.
Em uma país que não prima pela valorização de suas FOpEsp, mesmo no seio da comunidade castrense, não é de surpreender que os processos seletivos dos cursos de formação de operadores, sobretudo no que se refere às Forças Auxiliares, deixassem a desejar em alguns aspectos. Um problema recorrente trata da reprodução de modelos de formação que produzem bons resultados em determinado estado, mas que são impróprios ou ineficientes em outras regiões do país em virtude das especificidades que as distinguem. Nesse contexto, seria adequado que os respectivos Órgãos de Segurança Pública tivessem o cuidado de estudar as demandas específicas de cada unidade OpEsp de modo a promover cursos de formação continuada que atendessem aos requisitos da tropa que opera naquela região do Brasil.

Fotografia 3: Candidatos ao programa de seleção e treinamento das Forças Especiais da Croácia. (Fonte: Disponível em: http://specialoperations.com/28007/croatian-sof-selection-and-training/ Acesso em: 10 jul. 2017).

Outro agravante relacionado aos cursos de formação de ElmOpEsp ministrados no Brasil trata da incapacidade de alguns programas em identificar e suprimir previamente pessoas, que a longo prazo, não trazem resultados efetivos para a unidade. Assim, conforme encontram-se estruturados atualmente, alguns processos de seleção aprovam indivíduos que conseguem vencer os rigores físicos e psicológicos do curso, mas que no decorrer da carreira de operador não demonstram ter o comprometimento necessário para com as obrigações da atividade OpEsp. Uma solução viável para essa questão seria criar mecanismos que promovessem o Estudo Profissiográfico e o Mapeamento de Competências dos candidatos antes que o curso de formação seja iniciado.
O Estudo Profissiográfico refere-se ao levantamento prévio dos requisitos básicos necessários para o desempenho de tarefas específicas, bem como à identificação das condições que podem favorecer ou dificultar sua execução. Investigações profissiográficas contribuem para o planejamento estratégico institucional, servindo como referência para processos de recrutamento, seleção, capacitação, avaliação de desempenho, além de colaborarem para a análise da estrutura dos cursos de formação e aperfeiçoamento.
Por sua vez, o Mapeamento de Competências busca identificar, analisar e determinar o conjunto de capacidades profissionais (técnicas e comportamentais) requeridas para o bom desempenho das tarefas inerentes à atividade a ser desempenhada. A partir desse processo é possível perceber eventuais lacunas existentes entre as capacidades apresentadas pelos candidatos e as competências requeridas para a consecução dos objetivos a serem alcançados nos diferentes processos seletivos.

Ilustração 1: Relação (genérica) das capacidades humanas requeridas dos quadros operacionais das unidades militares/policiais de elite. (Fonte: Conteúdo idealizado por Rodney Alfredo P. Lisboa).
Com base no que foi apresentado até o momento, devo externar aqui minha opinião pessoal. Como profissional de Educação Física que atuou por 15 anos em instituições de ensino superior, especificamente em disciplinas relacionadas à Motricidade Humana e à Formação Esportiva, acrescendo os oito anos  em que venho me dedicando à pesquisar o universo relativo às  tropas especiais, acredito que nas OpEsp, assim como em qualquer outra atividade inerente ao ser humano, o talento individual para o desempenho de determinada tarefa encontra-se diretamente relacionado à "predisposição" (característica geneticamente determinada que favorece a aquisição e o desenvolvimento de certas capacidades). Nesse sentido, por mais que a habilidade técnica seja adquirida e aprimorada por ocasião do treinamento sistemático, não existe adestramento, por mais eficiente que seja, capaz de produzir talento em um indivíduo sem tal predicado. Na prática, o operador talentoso possui, intrinsecamente desde a infância, um conjunto de atributos físicos, motores, neurológicos e psicológicos, somados à valores éticos obtidos por influência do meio (social), que favorecem o desempenho optimizado das atividades relacionadas às OpEsp. Uma questão relevante e que merece profunda reflexão refere-se ao fato de que em sendo o talento fruto de herança genética, existem indivíduos com genuína vocação para compor os quadros operacionais das unidades militares/policiais de elite que por falta de instrução e/ou oportunidade acabaram não ingressando em um programa de formação OpEsp, motivo que relegou esse talento à condição de estado latente permanente devido à falta de estímulos que fizessem aflorar capacidades ocultas (não manifestadas). 




sexta-feira, 7 de julho de 2017

Informativo FOpEsp, nº 17

Publicação de Artigo


Ilustração 1: Chamada para o artigo sobre a eventual criação de um Comando Conjunto de Operações Especiais que integra as unidades militares de elite brasileiras em um Comando Integrado vinculado ao Ministério da Defesa (MD). (Fonte: Arte elaborada por Rodney Alfredo P. Lisboa).


Informo a todos os seguidores do blog FOpEsp que a Revista Segurança e Defesa em sua última edição (nº 126, p. 54-57), publicou um artigo de minha autoria com o título:


"Comando Conjunto de Operações Especiais: Uma Tendência para o Brasil?"


Considerando o cenário internacional contemporâneo, afetado por um amálgama de ameaças clássicas (estatais) e recentes (não estatais), o presente artigo analisa a necessidade das Forças Armadas (FFAA) de Estados soberanos disporem de Comandos Integrados de Operações Especiais (OpEsp) aptos a lidar com uma modalidade de enfrentamento que se caracteriza por ações de natureza irregular. Tendo a realidade das FFAA brasileiras como referência, o texto versa também sobre a viabilidade de se constituir, na estrutura organizacional do Ministério da Defesa (MD), um Comando OpEsp unificado. 

Fotografia 1: Capa da edição nº 126 da Revista Segurança e Defesa. (Fonte: Acervo da Revista Segurança e Defesa).