terça-feira, 27 de junho de 2017

Arquivo Histórico FOpEsp nº 3: FOES nas selvas da zona do Vale do Rio Apurimac e Ene (2011)

Texto e arte elaborados por Anderson Subtil*.


Forças de Operações Especiais (FOES) da Marinha de Guerra do Perú
Fuerzas de Operaciones Especiales de la Marina de Guerra del Perú


Operando como Mergulhadores de Combate (MECs) da Marinha de Guerra do Perú (MGP), as Forças de Operações Especiais (Fuerzas de Operaciones Especiales [FOES]) são, sem dúvida, a mais bem preparada entre as muitas unidades militares de elite locais. Seus primórdios remontam a ano de 1968, quando surgiram os Grupos de Demolição Submarina (Grupos de Demolición Submarina [GRUDES]), tendo seus primeiros integrantes treinado com os SEALs da Marinha norte-americana e com os Buzos Tacticos da Marinha argentina.
Veteranos das duras lutas contra os terroristas do Sendero Luminoso e do Movimiento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA), seus operadores também se bateram contra os equatorianos durante o Conflito do Cenepa e tomaram parte da exitosa Operación Chavín de Huántar, o resgate dos reféns do MRTA na residência do embaixador japonês em Lima, em abril de 1997. Atualmente, encontram-se bastante ativos nas inóspitas selvas da zona do Vale dos Rios Apurímac e Ene, (VRAE), combatendo os remanescentes do Sendero Luminoso, agora aliados dos narcotraficantes da região.  
O Comando de Operações Especiais (Comandancia de Operaciones Especiales [COMFOES]) é uma das cinco forças operacionais da MGP e está sediada em Lima, na base aeronaval de El Callao, sendo responsável por quatro Grupos de Operações Especiais (Grupos de Operaciones Especiales [GOE]): GOE-Centro (El Callao), GOE-Norte (Tumbes), (GOE-Nororiente (Iquitos) e GOE-Sur (Arequipa). Alem dos GOE, existem destacamentos operacionais nos Andes peruanos (Lago Titicaca) e na zona do VRAE. Na estrutura organizacional da COMFOES existe ainda a Unidade de Desativação de Explosivos (Unidad de Desativación de Explosivos [UDE]), o Grupo de Salvamento (Grupo de Salvataje [GRUSAL]), bem como a Escola de Operações Especiais (Escuela de Operaciones Especiales).


Operador do destacamento operacional das FOES da Marinha de Guerra peruana atuando em uma missão de contra-insurgência na zona dos rios Apurimac e Ene (VRAE) no decorrer de 2011. (Ilustração: Anderson Subtil, para a seção "Arquivo Histórico FOpEsp").

Como é comum dentro das forças peruanas, este operador FOES, engajado em uma das inúmeras operações de contra-insurgência e contra o narcotráfico no VRAE, está vestido e equipado com uma série de itens de origem estrangeira, a começar por seu uniforme camuflado com o padrão pixerizado MARPAT (Marine Pattern), o mesmo padrão usado pelo Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA (U.S. Marines Corp [USMC]). Por sua vez, lenço que lhe cobre a cabeça, estampa o antigo padrão Woodland (Folhagem), igualmente de origem americana. Os coturnos, provavelmente o único item local da indumentária, são do tipo convencional, trazendo, no entanto, um solado de borracha similar aos das Botas Tropicais de Combate (Tropical Combat Boots) dos anos 80. Quanto ao equipamento individual, se resume aos mesmos suspensórios táticos usados pela infantaria israelense, com suas inúmeras bolsas de variados tamanhos e utilizações. Sua arma é um moderno fuzil de assalto “bullpup”  FN Herstal F-2000, no calibre 5,56mm OTAN.


Materiais utilizados na confecção da ilustração: A técnica utilizada para o desenho do operador é mista, sendo empregado lápis de cor, aquarela, rotuladores e canetas coloridas, aplicados sobre papel triplex 180. As insígnias da Marinha de Guerra peruana e do Comando de Forças de Operações Especiais da respectiva força foram incorporados ao desenho por Computação Gráfica (tratamento em Photoshop e PowerPoint).



* Anderson Subtil é natural de Curitiba-PR, onde estudou na Escola de Música e Belas-artes do Paraná. Trabalha como Artista Gráfico, Arte Finalista e Produtor Gráfico, tanto no mercado editorial quanto na indústria gráfica. Atua, paralelamente, como pesquisador autodidata de assuntos militares e de Defesa, com especial interesse na história da Segunda Guerra Mundial, tropas de relevância histórica e unidades especiais. Compõe o grupo de colaboradores das revistas Tecnologia e Defesa e Tecnologia e Defesa  Segurança, respondendo ainda pela correspondência da afamada revista Espanhola Soldiers RAIDS no Brasil. 





terça-feira, 20 de junho de 2017

Aplicações Tecnológicas OpEsp nº 2: Avião de Transporte e Reabastecimento Embraer KC-390

Texto elaborado por Rodney Alfredo P. Lisboa

Avião de Transporte e Reabastecimento 
Embraer KC-390

Fotografia 1: Embraer  KC-390, cargueiro militar à jato de transporte tático/logístico e reabastecimento em voo, considerado como o maior e mais moderno avião militar produzido na América Latina. (Fonte: Disponível em: http://www.popularmechanics.com/military/a22057/kc-390vs-c-130-super-hercules/Acesso em: 19 jun. 2017).

Desenvolvido conjuntamente entre a EMBRAER Defesa e Segurança (Divisão da EMBRAER [Empresa Brasileira de Aeronáutica]) e a FAB (Força Aérea Brasileira) com o propósito de produzir uma plataforma aérea multifunção, o projeto do KC-390 mostrou ser um desafio desde sua concepção, uma vez que propunha ser a maior aeronave fabricada na América Latina, dotada com avanços tecnológicos inovadores para a indústria brasileira, com a responsabilidade de substituir o icônico avião quadrimotor turboélice Lockheed C-130 Hércules, utilizado pela FAB desde a década de 1960.
Como cargueiro militar à jato (biturbina) que pretende ser versátil, capaz de operar em regiões de calor e frio intensos, com aptidão para decolar/aterrissar em pistas curtas e/ou não pavimentadas, caberá ao KC-390 desempenhar uma diversidade de tarefas operacionais, tais como: transporte e lançamento de tropas e cargas; reabastecimento em voo; operações de busca e resgate; evacuação aeromédica; operações humanitárias e sociais de auxílio à população civil; entre outras.
O protótipo do KC-390 teve seu voo inaugural em fevereiro de 2015, e atualmente passa por uma série de testes como parte de uma campanha denominada “congelamento aerodinâmico”, cuja finalidade é identificar a necessidade de promover alterações aerodinâmicas a fim de definir o design externo definitivo da aeronave. Como parte dessa campanha, em junho de 2016 foi realizado na Base Aérea de Campo Grande (estado do Mato Grosso do Sul [MS]) o primeiro teste de lançamento de paraquedistas. Na ocasião do evento, tomaram parte dos testes, executando as modalidades de salto semiautomático (enganchado) e salto livre (sem equipamento), militares do EAS (Esquadrão Aeroterrestre de Salvamento [também conhecido pelo acrônimo PARA-SAR]), unidade OpEsp (Operações Especiais) da FAB, bem como da BdaInfPqdt (Brigada de Infantaria Paraquedista) do EB (Exército Brasileiro).


Fotografia 2: Quadros operacionais do EAS (Esquadrão Aeroterrestre de Salvamento [PARA-SAR]), unidades OpEsp (Operações Especiais) da FAB (Força Aérea Brasileira), executam salto livre a partir da rampa carga do KC-390 como parte do primeiro teste de lançamento de paraquedistas realizado pela aeronave. (Disponível em: http://airway.uol.com.br/kc-390-realiza-primeira-lancamento-de-paraquedistas/ Acesso em: 19 jun. 2017). 

Sobre ambas modalidades de salto cabe aqui um esclarecimento. Nos testes realizados no MS a aeronave, observando as particularidades de cada modalidade, teve que alcançar altitudes distintas para promover o lançamento dos paraquedistas, sendo o salto semiautomático realizado a 1.000ft (333m) de altura, enquanto o salto livre é executado à 12.000ft (4.000m). Em ambos os casos, o KC-390, conforme doutrina adotada no Brasil para plataformas aéreas de lançamento de paraquedistas, teve que navegar na ZL (Zona de Lançamento) a uma velocidade de 70 metros por segundo para que os militares pudessem executar o método de salto que lhes cabia. Especificamente no que se refere aos saltos à grandes altitudes (acima de 12.000ft), nos quais os paraquedistas necessitam de dispositivos de respiração em virtude do ar rarefeito, o KC-390 apresenta-se configurado com diferentes pontos aptos a receber suprimento de oxigênio que abastecerá os militares que venham a executar esse tipo de salto.  
Especificamente no que se refere à capacidade do KC-390 de operar como plataforma de apoio às OpEsp, destaca-se o espaçoso compartimento de carga dotado com a capacidade de se reconfigurar conforme o perfil da missão a ser executada. A aeronave é dotada com Sistema de Movimentação e Lançamento Aéreo (Cargo Handing and Aerial Delivery System [CHS/ADS]), capaz de movimentar e transportar cargas variadas acondicionadas sobre palets e promover seu lançamento durante o voo mediante extração por gravidade e paraquedas. O CHS/ADS a ser utilizado pelo KC-390 será composto por controle central eletrônico, travas eletromecânicas, trilhos guias retráteis, roletes reversíveis, argolas para fixação, além de pisos estruturais aptos a suportar grande capacidade de carga.


Fotografia 3: Detalhe de uma das duas portas de lançamento de paraquedistas dotada com defletores aerodinâmicos embutidos que visam atenuar os efeitos do deslocamento de ar sobre os militares que se aproximam para execução do salto semiautomático. (Fonte: Disponível em: http://tecnodefesa.com.br/conhecendo-o-kc-390-por-dentro/ Acesso em: 19 jun. 2017).

Especula-se que além das cargas úteis que os C-130 Hércules empregados pela FAB lançam atualmente, o KC-390 terá capacidade de operar o Sistema de Lançamento Aéreo Marítimo (Maritime Craft Aerial Delivery System [MCADS]) desenvolvido pela empresa norte-americana Airborne System, capaz de lançar embarcações infláveis de casco rígido como o modelo Hurricane H-753 que é empregado pelo GRUMEC (Grupamento de Mergulhadores de Combate) da Marinha do Brasil (MB). Na eventualidade dessa possibilidade se concretizar, tal capacidade contribuiria para a projeção do Poder Naval brasileiro, uma vez que posicionaria MECs (Mergulhadores de Combate) em qualquer área de interesse nas Águas Jurisdicionais Brasileiras no mar ou em qualquer ponto da bacia Amazônica.
Em relação aos procedimentos preparatórios para o salto, o KC-390 apresentará um painel de luzes com padrão de três cores (vermelha, amarela/âmbar e verde) empregadas como forma de comunicação do piloto com os paraquedistas para indicar as condutas de salto. Convém esclarecer que nas aeronaves utilizadas atualmente pela FAB para transporte (C-130 Hércules; C-105 Amazonas [EADS/CASA C-295]; EMB-110 Bandeirante), o padrão de cores do painel se resume a duas (vermelha e amarela), sendo necessário estabelecer uma normatização para as condutas considerando a luz amarela. Todavia, tomando por referência as rotinas à bordo, acredita-se que a luz vermelha alertará para as emergências e procedimentos de impedimento, a luz amarela indicará as condutas de atenção e instruções preparatórias, enquanto a luz verde assinala a autorização para a execução do salto.


Figura 1: Especificações técnicas da aeronave Embraer KC-390. (Fonte: Elaborado por Rodney Alfredo P. Lisboa com base em informações fornecidas pela Embraer Defesa e Segurança).

Quando comparado ao C-130 Hércules, o KC-390 apresenta espaço interno mais amplo que favorece a movimentação dos militares quando estes se encontram munidos de todos os equipamentos, proteção acústica melhor, bancos maiores e mais confortáveis, sinto para o transporte de tropa mais adequado, dotado com fivela em um ponto que favorece o engate para a “ancoragem” durante os procedimentos de decolagem e aterrissagem quando o militar encontra-se totalmente equipado (armado e mochilado). 
Localizadas imediatamente atrás de cada uma das asas, as duas portas laterais que servem para a execução do salto semiautomático foram idealizadas com tamanho e angulação que favorecem a execução do salto, uma vez que possuem um defletores aerodinâmicos que evitam a instabilidade e turbulência ocasionadas pela ação do deslocamento de ar, proporcionando maior conforto tanto para o Mestre de Salto (militar responsável pelo planejamento do salto e lançamento da tropa durante o voo) quanto para os paraquedistas. Além disso, quando aberta durante o voo, a porta apresenta uma pequena plataforma que favorece no procedimento de saída da aeronave em decorrência do salto.


Vídeo 1: Vídeo institucional produzido pela Embraer Defesa e Segurança apresentando a primeira campanha de testes a que foi submetido o KC-390. (Fonte: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1ZMZHrCB4M8&t=13s Acesso em: 19 jun. 2017). 


Vídeo 2: Filmado em 360º no interior do compartimento de carga do KC-390 (configurado para o transporte de tropas), vídeo apresenta o lançamento de paraquedistas a partir das portas laterais (salto semiautomático) e da rampa de carga (salto livre). (Fonte: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=JCGeN71dZIE Acesso em: 19 jun. 2017).


Para maiores informações consultar:
http://www.embraerds.com


Agradecimentos:
O blog FOpEsp agradece o EAS/PARA-SAR pelo suporte ofertado no desenvolvimento deste texto nas questões relacionadas às capacidades do KC-390 como plataforma de apoio às OpEsp, e estende sua gratidão ao GRUMEC por ocasião do apoio aos assuntos atinentes ao sistema de lançamento aéreo da lancha Hurricane.




quarta-feira, 14 de junho de 2017

Bushido: Estabelecendo Correlações entre o Ethos das Operações Especiais e o Código de Ética Samurai

Texto elaborado por Rodney Alfredo P. Lisboa


Fotografia 1: Cena do filme "Falcão Negro em Perigo" (2001) retratando a atitude (compaixão, lealdade e sacrifício pessoal) de um operador do 1º Destacamento Operacional de Forças Especiais-Delta (1st Special  Forces Operational Detachment-Delta [1st SFOD-D]) do Exército dos EUA em conformidade com os princípios morais do Bushido. (Fonte: Composição elaborada por Rodney Alfredo P. Lisboa). 

Anos atrás, quando tive a oportunidade de trabalhar como professor universitário em cursos de Graduação em Educação Física, assumi a incumbência de ministrar disciplinas que promoviam uma introdução às Artes Marciais para os alunos de diferentes instituições de ensino superior. Como um admirador da cultura japonesa, sobretudo no período que baliza a formação, ascensão e derrocada da classe Samurai (que se estende do século VIII até a segunda metade do século XIX), imaginei ser àquela uma oportunidade ímpar para apresentar aos discentes, não apenas o prelúdio de um conjunto de técnicas inerentes a uma modalidade de luta específica, mas um vislumbre dos peculiares aspectos morais que norteavam os pormenores diários da nobre classe guerreira japonesa. Na minha concepção, como uma forma de contribuir para a formação pessoal e profissional dos alunos, seria relevante que eles percebessem as discrepâncias existentes no processo de constituição do caráter de ocidentais (excessivamente ligados às questões que lhes são extrínsecas) e orientais (mais preocupados com temas que lhes são intrínsecos). Naquela época, na tentativa de estabelecer uma relação da classe Samurai com atividades que fossem familiares aos discentes, fui levado a escrever um artigo intitulado:

"A Evolução Histórica do Kendo (a Esgrima Japonesa) e sua Afirmação como Modalidade Esportiva”

Embora minha experiência como docente nesta área de formação tenha se prolongado por apenas seis anos, àquela oportunidade me permitiu uma percepção de mundo sem a qual eu jamais atingiria em virtude de minha origem (ocidental).
Tempos depois, já na qualidade de Historiador Militar, ao me impor o desafio de estudar diferentes questões relacionadas às Operações Especiais (OpEsp), chamou-me atenção o conjunto de hábitos e comportamentos que orientam o caráter moral dos membros da comunidade OpEsp. Fruto da cultura, educação e tradição, sendo assimilados por observação e experiência, a forma como os membros dessa comunidade específica pensam e agem estão em tamanha conformidade com o “modo de ser” da nobre classe Samurai, que não devem ser analisados apenas superficialmente ou considerados como simples coincidência.


Fotografia 2: Imagem obtida em 2009, quando o Prof. Ms. Rodney Alfredo P. Lisboa ministrava aulas de introdução às Artes Marciais para acadêmicos de cursos de Graduação em Educação Física. Na ocasião da foto, a técnica apresentada aos alunos considerava os movimentos de embainhar e desembainhar a Katana (tradicional espada japonesa) característicos do Iaido. (Fonte: Acervo de Rodney Alfredo P. Lisboa).

Especificamente no que concerne aos Elementos de Operações Especiais (ElmOpEsp), a familiaridade com a classe guerreira japonesa tem início a partir da tradução do termo “Saburu’, palavra da qual deriva a expressão “Samurai”, e cuja tradução refere-se “àquele que serve”. Nesse sentido, enquanto os Samurais originalmente eram agricultores que por dever de vassalagem serviam obstinadamente à seu senhor feudal (Daimyo), os ElmOpEsp são militares altamente especializados que por dever moral servem ao seu país com a mesma tenacidade.
É importante esclarecer que na sociedade feudal japonesa os Samurai emergiram das províncias do Japão combatendo ao lado de seus senhores (mestres) em constantes guerras entre clãs rivais por disputa de território, para tornarem-se a classe dominante no período entre os séculos XV e XIX quando da instauração do sistema de Xogunato (sistema de governo chefiado por um Xogun [representante da classe Samurai]).
Treinados militarmente desde a infância, os Samurai formavam uma casta hereditária respeitadíssima, evidenciada não apenas pela exímia habilidade em manipular a espada (Katana), mas, principalmente, pelo rígido código de honra (Bushido) que incutia o espírito marcial ao vassalo propondo-lhe servir ao seu senhor com o máximo de empenho, lealdade, bravura e, se preciso fosse, segui-lo até a morte.


Fotografia 3: Cena do filme "O Último Samurai" (2003) destacando o metódico e obstinado treinamento dos Samurai no intuito de alcançar a excelência física e mental no manejo da Katana. (Fonte: Disponível em: https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/70/29/e2/7029e2ece3078053d69babc0fbb33569.jpg Acesso em: 12 jun. 2017).

O que precisa ficar claro em relação ao modo de combater do Samurai, é que diferente do método de esgrima praticado na Europa, no qual os adversários trocavam golpes de espada visando um movimento de estocada, no Japão a espada era manejada em combate visando a execução de um único golpe de ceifa, preciso, cortante, mortal. 
Elaborado a partir de um intrincado amálgama de correntes filosóficas (Xintoísmo, Budismo, Taoísmo e Confucionismo) que permitiam o aprimoramento da classe Samurai, o Bushido, cuja tradução literal significa “Caminho do Guerreiro”, caracterizava-se por ser um código de princípios morais e virtudes militares que os membros da aristocracia guerreira japonesa (sejam eles homens ou mulheres) deveriam aprender a observar desde a mais tenra infância. Sem nenhum ensinamento escrito, o Bushido era transmitido apenas oralmente de modo a valorizar qualidades como: honra, lealdade, excelência no emprego das armas, simplicidade, destemor, além de resistência às mais duras provações físicas e psicológicas.
Embora as atividades conduzidas pelos ElmOpEsp possam ser associadas mais diretamente à figura do Ninja devido aos métodos não convencionais por eles adotados no período que corresponde ao Japão feudal, o que nos incita a reflexão neste momento não são os métodos operacionais outrora empregados, mas a reunião de princípios éticos que norteavam o caráter e a conduta da elite guerreira japonesa. Sobre os Ninjas cabe aqui desconstruir um estereótipo constituído na sociedade ocidental contemporânea. No contexto das guerras feudais japonesas, o Ninja não deve ser encarado como um agente movido pela perversidade para, invariavelmente, antagonizar a classe Samurai. Na verdade, conforme a orientação política do senhor feudal a quem deviam obediência, ambos (Samurai e Ninja), cada um em sua área de especialidade (Samurai [Confronto Direto); Ninja [Confronto Indireto]) podiam combater na qualidade de aliados ou inimigos. 


Figura 1: As sete virtudes fundamentais do código de princípios morais empregado de forma resoluta pelos guerreiros Samurai. (Fonte: Arte elaborada por Rodney Alfredo P. Lisboa).

Conforme é possível observar nesta breve apresentação, muitos dos princípios morais que outrora distinguiam o Bushido são coincidentes com o ethos adotado pelas FOpEsp contemporâneas. Qualidades como honra, lealdade, camaradagem, coragem, determinação, patriotismo, comprometimento, orgulho, disciplina e excelência profissional, que se fazem notar diariamente em cada ElmOpEsp e criam fortes laços entre eles, também eram comuns entre os integrantes da classe Samurai. Nesse contexto, ambas as comunidades se caracterizam pela observância ao cumprimento do dever e a extrema lealdade para com seus pares, sendo a desonra a maior de todas as punições.
Ainda que o presente texto concentre sua atenção na conjunção de princípios morais que balizavam a conduta do guerreiro Samurai, devotado física e mentalmente para aprimorar a arte da guerra, preparando-o para administrar as adversidades da vida e a iminência da morte, o estudo do modo de guerrear do Samurai tem muito a ofertar para a comunidade OpEsp no que concerne ao autoconhecimento e ao autocontrole (físico e mental) inerentes à condução do enfrentamento. Separados pelo tempo e pelo espaço, o ElmOpEsp e o guerreiro Samurai, como nobres representantes da nata militar de suas respectivas épocas, apresentam conexões ainda difusas que merecem ser examinadas em toda sua profundidade. Assim, as comparações expressas nesse texto correspondem apenas à ponta de um grande iceberg.


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Vídeo 1: A flor mencionada no vídeo acima é denominada Sakura (Flor de Cerejeira), considerada como a flor nacional do Japão e o símbolo da classe Samurai. 


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Vídeo 2: Conforme retratado no vídeo acima, para o ElmOpEsp o cumprimento do dever e a lealdade para com seus pares sobrepõe-se a tudo, incidindo em tamanho desprendimento que leva o militar ao sacrifício pessoal.



Para saber mais sobre o ethos das OpEsp acesse a postagem correspondente:
http://fopesp.blogspot.com.br/2016/06/o-ethos-das-operacoes-especiais.html






segunda-feira, 12 de junho de 2017

Ação de Tiro Embarcado em Helicóptero por Operadores da SWAT: Estudo de Caso

Texto elaborado por Francisco Paulo Costa da Silva*   


Figura 1: Policiais da SWAT (Special Weapons and Táctics [Armas e Táticas Especiais])  sobrevoam a regão de Downtown à bordo de uma aeronave Esquilo da Divisão de Suporte Aéreo (Air Support Division) do Departamento de Polícia de Lós Angeles (Los Angeles Police Department [LAPD]). (Fonte: Disponível em: http://www.policemag.com/photogallery/photos/141/lapd-s-air-support-division/1372.aspx Acesso em: 26 mai. 2017).

Em uma operação realizada em maio de 2017, a polícia da cidade de Los Angeles, situada na costa oeste dos EUA, teve êxito em uma missão que repercutiu na imprensa norte-americana local e nacional. Essa ação teve como destaque o fato de que, pela primeira vez, forças policiais haviam utilizado um helicóptero para neutralizar um suspeito armado entrincheirado em uma casa.
No dia 8 de maio, a polícia de Los Angeles recebeu um comunicado de que um suspeito, que poderia estar fortemente armado, havia invadido uma casa na região de Sunland, um bairro afastado da cidade. Percebendo que sua residência estava sendo invadida por um estranho, a proprietária conseguiu fugir juntamente com seu filho pequeno, deixando para trás várias armas à disposição do intruso. De imediato, a polícia local despachou equipes de patrulhamento de rotina que, ao chegarem à residência, observaram que o suspeito estava armado, fato que justificaria a chamada de uma equipe da SWAT (acrônimo da língua inglesa utilizado em referência à Special Weapons And Tactics [Armas e Táticas Especiais]) para resolver a crise. A princípio, os policiais tentaram demover o suspeito pela via da negociação. Contudo, devido à postura relutante do indivíduo e da localização geográfica da casa, que restringia bastante a aproximação segura por parte dos policiais, dando ao bandido a vantagem, o chefe da SWAT resolveu acionar uma equipe de atiradores embarcados em helicóptero para prover o apoio aéreo necessário à retomada da residência. É importante assinalar que os atiradores embarcados pertencem à própria SWAT, pois a unidade de aviação local não tem atiradores orgânicos em suas fileiras. Após várias tentativas fracassadas de negociação, a polícia resolveu lançar gás lacrimogêneo dentro da casa, o que obrigou o bandido a sair. Fora da residência, o suspeito começou a disparar contra os policiais que estavam fora da casa e, ao perceber a aproximação do helicóptero, também efetuou disparos contra a aeronave, sendo alvejado e morto pelos atiradores do helicóptero que responderam ao ataque.

Figura 2: Teatro de Operações da ação levada à efeito em oito de maio de 2017 pelos policiais da SWAT embarcados em helicóptero. (Fonte: Disponível em: http://tribunist.com/news/lapd-swat-sniper-shoots-and-kills-suspect-from-helicopter-video/. Acesso em: 26 mai. 2017).

Sobre esta ocorrência específica, algumas considerações táticas devem ser consideradas: a residência estava localizada em uma zona de elevação, rodeada por árvores e detritos que dificultavam a aproximação e ação dos policiais; somente o bandido tinha essa vantagem, devido à localização da casa e à dificuldade da polícia em se aproximar da residência, fato esse que ocasionou o acionamento do helicóptero; a polícia teria que recuperar a vantagem tática: Diante da dificuldade de desalojar o bandido, a única solução que se mostrava viável seria o emprego de atiradores embarcados em helicóptero como forma de sobrepujar a ameaça. Nesse caso, a aeronave foi utilizada de forma ofensiva, acabando com uma tradição de somente utilizá-la como plataforma de observação. Após esse fato, quebrou-se um paradigma que norteava a doutrina de rádio-patrulhamento aéreo da polícia de Los Angeles; seria leviano dizer exatamente o que aconteceu. No entanto, observando o terreno e a condição de localização da casa, pode-se presumir que o helicóptero tomou uma atitude circular de voo sobre o alvo não ultrapassando 50kt (nós [cerca de 90 km/h]) de velocidade a uma altura de aproximadamente 200ft (pés [aproximadamente 60 metros]). Ressalta-se que esses dados são apenas parâmetros para efetuar disparos em circunstâncias como a apresentada, a depender da situação do terreno; a polícia utilizou um helicóptero Esquilo (modelo AS 350), com a plataforma TSOP (Tyler Special Operation Plataform), acoplada em ambos os lados do helicóptero. Os atiradores estavam utilizando armamento com miras holográficas e magnificador e, provavelmente, estavam portando fuzis calibre 5.56 mm, geralmente padronizados para as equipes táticas da polícia nos EUA.
É bem sabido que o tiro embarcado a partir de helicópteros já é fato antigo em território norte-americano, basta relembrar um evento ocorrido no estado do Alasca, em 1984, no qual dois policias estaduais, embarcados em um helicóptero Esquilo, enfrentaram um bandido fortemente armado, havendo troca de tiros na circunstância, resultando na morte de um policial e do próprio bandido. Apesar desse fato, essa técnica não foi largamente difundida pelas polícias, devido às diferentes legislações estaduais e por outras situações de ordem legal. No entanto, após o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, houve um crescente número de agências da lei que passaram a utilizar o helicóptero como plataforma de tiro, à exemplo da US Cost Guard (Guarda Costeira dos EUA), com a unidade HITRON (Helicopter Interdiction Tactical Squadron, ou Esquadrão Tático de Interdição por Helicóptero), que realiza o trabalho de interdição das lanchas que tentam entrar pelo mar do Caribe na costa da Flórida carregadas de drogas vindas da América do Sul, e a US Boder Patrol Aviation Unit (Unidade de Aviação da Patrulha de Fronteira dos EUA), que utiliza diversos helicópteros em operações de segurança na fronteira sul estadunidense.

Fotografia 3: Valendo-se do dispositivo TSOP (Tyler Special Operation Plataform, ou Plataforma Tyler para Operações Especiais), atiradores da SWAT do LAPD  embarcados no helicóptero sobrevoam o local da ocorrência em questão. (Fonte: Disponível em: http://tribunist.com/news/lapd-swat-sniper-shoots-and-kills-suspect-from-helicopter-video/. Acesso em: 26 mai. 2017).

Sobre a situação brasileira, convém salientar que a antiga CGOA (Coordenadoria Geral de Operações Aéreas) da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro foi pioneira nessa técnica no início dos anos oitenta, levando essa doutrina para todos os estados e para a Polícia Federal. É fato que, devido ao altíssimo nível da violência em nosso país em todos esses anos, o emprego de atiradores embarcados vem crescendo exponencialmente nas polícias estaduais. Hoje, temos, sem dúvidas, uma grande casuística no cenário de combate urbano nas favelas do Rio de Janeiro elevada a um estado de guerra irregular travado por unidades policias especiais, aéreas e terrestres, contra criminosos fortemente armados. Além disso, o Brasil tem uma legislação extremamente legalista. Nota-se com frequência o predomínio do discurso enviesado dos diretos humanos que, de certa forma, inibe um estudo qualificado por parte das unidades policiais dos resultados de confrontos utilizando helicóptero contra meliantes armados.
Segundo o chefe da polícia local, Charlie Beck, após os fatos narrados, a polícia de Los Angeles iniciou um procedimento padrão de verificação do ocorrido e da aplicabilidade do helicóptero no evento, ressaltando o legítimo emprego da força por parte da polícia. É de se esperar que, a partir daí, algumas agências americanas comecem a adotar esse tipo de técnica em suas unidades aéreas, tendo em vista a vantagem tática que se obteve diante do suspeito barricado em terreno elevado. Como é de costume nos EUA, país que se notabiliza pela excepcionalidade devido a análise das práticas, com base no resultado da ação em questão, a técnica empregada pelos policiais embarcados da SWAT provavelmente será estudada e sistematizada, ficando à disposição de toda a comunidade de operações policiais especiais daquele país.


Francisco Paulo Costa da Silva é policial federal desde 2004, ano em que concluiu o curso de papiloscopista na Academia Nacional de Polícia. Atualmente exerce a função de líder da equipe de operadores aerotáticos (atiradores da porta do helicóptero) da CAOP (Coordenação de Aviação Operacional) da Polícia Federal (PF). É graduado em História pela Universidade de Pernambuco e cursa pós-graduação em Relações Internacionais pela Damásio Educacional. Na PF participou do curso de operações aerotáticas, bem como do curso de atirador designado aerotático. Frequentou o Curso de Comandos Jungla (Polícia Nacional da Colômbia) além do curso de operações antidrogas pela School of the Americas (Escola das Américas) atual WHINSEC (Western Hemisphere Institute for Security Cooperation, ou Instituto do Hemisfério Ocidental para Cooperação em Segurança). Cursou o Estágio de Operação e Sobrevivência em Área de Caatinga (72º BIMtz [72º Batalhão de Infantaria Motorizado do Exército Brasileiro) e o Estágio de Atirador de Precisão (BOPE [Batalhão de Operações Policiais Especiais da PM-RJ). 




quinta-feira, 8 de junho de 2017

Privatização do Enfrentamento: O Emprego do Elemento de Operações Especiais por Empresas Militares Privadas (Parte Final)

Texto elaborado por Rodney Alfredo P. Lisboa


Figura 4: Dupla de contractors em ação durante a Guerra do Iraque no decorrer de 2004. (Fonte: Disponível em: http://www.economist.com/news/business/21590370-industry-reinvents-itself-after-demise-its-most-controversial-firm-beyond-blackwater Acesso em: 7 jun. 2017).  


As Empresas Militares Privadas (Private Military Companies [PMCs]) atuaram na década de 1990 principalmente no continente Africano. Contudo, é possível constatar atuações dos contractos na Europa, sobretudo nas regiões onde ocorreu a desintegração da União Soviética, e no sudeste do continente asiático. Na primeira década do século XXI, em decorrência dos atentados terroristas de 11 de setembro contra o território norte-americano e da deflagração da Guerra Global contra o Terrorismo (Global War on Terrorism [GWOT]), essas corporações passaram a se concentrar no Oriente Médio, primeiramente no Afeganistão (Guerra do Afeganistão [a partir de 2001]) e posteriormente no Iraque (Guerra do Iraque [2003-2011]).
Sobre os locais onde estas corporações são levadas a operar sob contrato, é importante destacar que no cenário internacional apenas uma pequena quantidade de Estados tiveram a preocupação de instituir legislações nacionais no intuito de regular as ações das PMCs. A carência de legislação pertinente pode gerar sérios problemas jurídicos para as PMCs, a exemplo do que ocorreu no caso de quatro contractors à serviço da Blackwater, Security Consulting condenados pelo homicídio de 17 civis iraquianos em decorrência de um incidente ocorrido em 16 de setembro de 2007 na praça Nisour, localizada em Bagdá (capital do Iraque), enquanto escoltavam um comboio da embaixada norte-americana.
Particularmente no que concerne aos contractors, cabe destacar que embora não se restrinjam a empregar apenas pessoal egresso das Forças de Operações Especiais (FOpEsp), as PMCs têm nos ex-operadores das unidades militares de elite seus servidores preferidos quando da necessidade de contratar/empregar profissionais para desempenhar as diversas funções para as quais as empresas se comprometem. Essa preferência justifica-se uma vez que o Elemento de Operações Especiais (ElmOpEsp) destaca-se por apresentar apurada capacidade física, emocional e intelectual, diversificado conjunto de habilidades operacionais (incluindo linguísticas), foi submetido a rigorosos programas de seleção e treinamento, além de acumular experiência significativa em ações de campo. Nesse sentido, ainda que não operem exclusivamente valendo-se dos predicados ofertados por ex-operadores egressos das FOpEsp, as PMCs se beneficiam da associação estabelecida por potenciais empregadores, que relacionam a qualidade do serviço prestado por essas empresas com o nível de excelência militar manifestado pelas tropas especiais.



Figura 5: Equipe de contractors executam simulação de ação em decorrência de um ataque desferido por elementos adversos. (Fonte: Disponível em: http://samspecialforces.blogspot.com.br/2015_09_01_archive.html Acesso em: 7 jun. 2017).

Tal como as PMCs, as FOpEsp tem uma estrutura flexível, capaz de adaptar-se às situações que se apresentam com mais facilidade se comparadas às rígidas constituições militares convencionais. Nesse sentido, as PMCs somente irão adquirir equipamento e contratar pessoal após a ratificação de um contrato, de modo a otimizar gastos adequando-se aos requisitos do serviço a ser prestado.
Outro aspecto que merece ser abordado e que aproxima as PMCs das FOpEsp, trata da panóplia utilizada pelas empresas para cumprir com suas obrigações contratuais, uma vez que as armas e equipamentos utilizados pelos contractors, normalmente, fogem do padrão empregado por tropas regulares de infantaria.
No tocante à disposição, a organização em pequenas equipes característica das FOpEsp condiz com as demandas das PMCs, uma vez que promove a autossuficiência dos contractors em ambientes extremamente exigentes, principalmente em situações onde o suporte de forças de apoio pode não estar disponível.  
No atual cenário de enfrentamento, o Comando de Operações Especiais dos EUA (United States Special Operations Command [USSOCOM]) reconhece a utilidade das PMCs e as distingue como atores legítimos dotados com capacidade de prover serviços de segurança e operar em rede de colaboração com unidades militares, desde que sejam respeitados seus limites e limitações.  

Referência

GROGA, Lueka. Explaining Private Military Contractors in a Globalized World. (S.I.) Leiden University, 2011.




terça-feira, 6 de junho de 2017

Privatização do Enfrentamento: O Emprego do Elemento de Operações Especiais por Empresas Militares Privadas (Parte 1)

Texto elaborado por Rodney Alfredo P. Lisboa

Fotografia 1: Trio de contractors operando à serviço de uma Empresa Militar Privada (Private Military Companies [PMCs]). (Fonte: Disponível em: http://www.imgrum.org/media/1177429149418149510_1291634244 Acesso em: 5 jun. 2017). 

A relação das Empresas Militares Privadas (Private Military Companies [PMCs]), também conhecidas como Empresas Militares de Segurança, com as Operações Especiais (OpEsp) data da segunda metade da década de 1960, quando ex-oficiais do Serviço Aéreo Especial (Special Air Service [SAS]) britânico, incluindo Archibald David Stirling (idealizador do SAS), fundaram a Watch Guard International para prover treinamento e/ou aconselhamento militar especializado para países interessados em investir nesse tipo de capacitação.
Conforme é possível notar no exemplo da Watch Guard International, existe uma conexão “orgânica” entre as PMCs e as OpEsp, uma vez que muitos oficiais egressos das Forças Armadas (FFAA) nacionais tomaram a iniciativa de constituir empresas prestadoras desse tipo de serviço, ou assumiram funções executivas em companhias dessa ordem.
Transcorridas décadas desde a criação da Watch Guard International, considerada a empresa precursora do conceito relacionado a prestação de serviços militares privados, no cenário contemporâneo de guerra/crise, uma das figuras que mais desperta a atenção da opinião pública é a dos contractors à serviço PMCs. Na acepção do termo, a palavra contractor refere-se a um indivíduo que presta serviços para uma determinada empresa em regime de contrato (acordo voluntário entre duas partes [contratante e contratado] executável conforme legislação determinando direitos e deveres formalizados consensualmente]). Especificamente no que se refere às PMCs, são considerados contractors os funcionários militares privados empregados em situações de guerra/crise ou áreas potencialmente perigosas, com a finalidade de desempenhar uma grande diversidade de tarefas especializadas.
Devido à natureza militar não estatal das tarefas por eles desempenhadas, os contractors normalmente são denominados, inapropriadamente, como mercenários. Conhecidos pela expressão “soldados da fortuna”, os mercenários, tradicionalmente, são definidos como veteranos de conflitos passados, contratados individualmente para tomar parte em confrontos armados vigentes tendo a obtenção de lucro financeiro, e não a lealdade a um determinado Estado, como principal motivação para suas ações. Atuando usualmente à sombra da lei, os mercenários em geral são marginalizados, arregimentados de forma sigilosa, atuam na clandestinidade, prestam serviços limitados à seus contratantes, e não estão sujeitos às regras do Direito Internacional, conforme estabelecido pela Convenção de Genebra, que tratam das prerrogativas atribuídas aos prisioneiros de guerra sejam eles combatentes ou não. Nesse sentido, por serem motivados apenas pela obtenção de vantagens financeiras sem maiores comprometimentos com seus empregadores, o Direito Internacional considera os mercenários como criminosos comuns.


Fotografia 2: No Afeganistão, dupla de contractors proveem serviço de proteção/segurança de alto risco. (Fonte: Disponível em: https://br.pinterest.com/tactprotection/bodyguards/?lp=true Acesso em: 5 jun. 2017).


Por sua vez, os contractors são ex-militares com experiência de combate ou habilidades específicas, que gozam de plenas condições para executar atividades operativas, mas que por um motivo ou outro se desligaram das Forças Armadas (FFAA). Como qualquer funcionário do setor corporativo, eles prestam serviços legais (não atuam fora da lei) à empresa contratante desempenhando uma diversidade de serviços maiores e mais complexos que àqueles oferecidos por mercenários.
Outro aspecto que diferencia a atividade mercenária das funções exercidas por contractors refere-se à tipologia das ações executadas. Enquanto os mercenários têm liberdade para tomar a iniciativa do ataque, o que se espera das PMCs é que seus funcionários sejam empregados em ações predominantemente defensivas, envolvendo-se em situações de confronto apenas na eventualidade de serem atacados. 
É importante destacar também, que por disporem de destacada expertise em operações/situações relacionadas à atividade militar, os contractors não necessitam assimilar os fundamentos da capacitação básica, sendo necessário cursar programas de treinamento adequados à realidade da empresa que os contratou. Nesse sentido, os programas de treinamento promovidos pelas PMCs buscam aprimorar as capacidades de seus funcionários no que se refere ao portfólio de serviços ofertados por ela, criando um ambiente de responsabilidade, disciplina e coesão que as tropas mercenárias normalmente não dispõem.
A ascensão das companhias prestadoras de serviço militar privado ocorreu, principalmente, com o final da Guerra Fria (1947-1991), quando o vácuo de poder deixado pelas superpotências (Estados Unidos e União Soviética) fez aflorar antigas tensões em regiões periféricas, fato que evidenciou a fragilidade de alguns Estados nos setores de Segurança e Defesa. Também contribuiu para esse incremento a crescente demanda por aparatos tecnológicos no “estado da arte”, considerados onerosos demais para que Estados financeiramente comprometidos pudessem prover suas forças de Defesa com equipamentos de última geração, fato que motivou os governos desses países a transferir o ônus desse investimento para o setor privado, viabilizando o desenvolvimento das PMCs.


Fotografia 3: Cena do filme "13 Horas" (2016) que retrata as ações de um grupo de contractors na tentativa de defender um posto diplomático norte-americano do assédio de milicianos na cidade líbia de Benghazi. (Fonte: Disponível em: http://www.folhavitoria.com.br/entretenimento/cinema/filme/13-horas-os-soldados-secretos-de-benghazi.html Acesso em: 5 jun. 2017).

Diante desse ambiente de incertezas e oportunidades, as PMCs evoluíram consideravelmente, ampliando suas atividades no intuito de atender aos requisitos de todos os aspectos inerentes a um conflito armado. Nesse contexto, conforme estudo elaborado em 2011 por Lueka Groga na Universidade de Leiden (Holanda), as PMCs são classificadas de duas formas distintas. A primeira delas seria àquela que considera as PMCs como prestadoras de suporte direto ao combate, ou seja, companhias que engajam seus contractors no confronto, complementando ou substituindo as forças nacionais. A segunda categoria seria constituída por PMCs que prestam apoio indireto às operações de combate, não empregando seus contractors nas ações de enfrentamento, mas ofertando diferentes serviços de segurança (indivíduos, instalações e comboios), além de apoio logístico (planejamento estratégico, reconhecimento aéreo, serviços de inteligência, treinamento de forças locais, entre outros). 


Continua...


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Aplicações Tecnológicas OpEsp nº 1: Fuzil de Assalto HK 416A5

Texto elaborado por Rodney Alfredo P. Lisboa

Apresentação da Seção Aplicações Tecnológicas OpEsp

Idealizada com o propósito de apresentar aparatos tecnológicos desenvolvidos nos mais diferentes seguimentos para atender os exigentes requisitos da atividade de Operações Especiais (OpEsp), a seção “Aplicações Tecnológicas OpEsp” busca despertar a atenção de nossos seguidores/leitores para a relevância do binômio Ciência e Tecnologia, responsável por promover o incremento econômico-militar dos Estados que, após a Guerra Fria (1947-1991), perceberam a importância de investir em aplicações cientifico-tecnológicas com base no conceito denominado “Revolution in Military Affairs” (Revolução nos Assuntos Militares), segundo o qual a condução das guerras encontra-se cada vez mais influenciada pelo abundante e crescente uso da tecnologia.    
Ainda que a moderna tecnologia desperte o interesse em virtude dos produtos inovadores que possam apresentar, é nossa intenção retornar eventualmente ao passado com a finalidade de compreender como as Forças de Operações Especiais evoluíram a partir dos avanços tecnológicos de outrora.


Fuzil de Assalto HK 416A5
Fotografia 1: Fuzil de Assalto HK 416A5 dotado com cano de 11" (polegadas). (Fonte: Disponível em: http://www.heckler-koch.com/en/products/military/assault-rifles/hk416-a5/hk416-a5-11/overview.html Acesso em: 31 mai. 2017).

Desenvolvido pela alemã Heckler & Koch (HK) como uma evolução do conceituado modelo HK 416 fabricado pela empresa, o HK 416A5 é considerado como o fuzil de assalto que melhor atende aos requisitos operacionais contemporâneos das Forças de Operações Especiais (FOpEsp). Particularmente no que se refere à concepção do HK416, é importante destacar que o projeto original foi concebido no início da década de 1990 por encomenda do 1º Destacamento Operacional de Forças Especiais – Delta (1st Special Forces Operational Detachment – Delta [1st SFOD-D]) do Exército dos EUA tomando como referência os fuzis de assalto M4 e M16 da empresa norte-americana Colt Defense. Valendo-se da expertise em aprimorar plataformas produzidas por outros fabricantes, a HK assumiu as rédeas do projeto posteriormente iniciando em 2004 a produção de um armamento que mantinha a aparência externa do M4/M16 mas que apresentava alterações internas (mecânicas) significativas.
Segundo a empresa, o HK 416A5, assim como todos os armamentos por ela produzidos, é fabricado com materiais de primeira linha e valendo-se dos mais modernos processos de produção, possibilitando maior robustez e durabilidade das peças que compõem o conjunto, qualidades que ampliam a vida útil da arma.
O HK 416A5 calibre 5,56 X 45mm OTAN é um fuzil de assalto semiautomático operado por pressão de gás mediante recuo curto do pistão e trancamento por ação rotativa do ferrolho (mecanismo patenteado pela HK e originalmente desenvolvido para o fuzil de assalto G36). 


Figura 1: Sistema de operação por pressão de gás mediante recuo curto do pistão patenteado pela Heckler & Koch (HK). (Fonte: Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Gas-operated_reloading Acesso em: 31 mai. 2017).


Projetado para operar valendo-se da capacidade Over-the-Beach (OTB), de modo a não comprometer sua funcionalidade após submersão em ambiente líquido, o HK 416A5 é composto pelos seguintes componentes:

  • Cano contendo seis raias de 178mm distribuídas no sentido horário;
  • Gatilho de 34N (3,365 kgf);
  • Seletor de tiro ambidestro com três níveis de ajuste (travada, tiro seletivo e rajada);
  • Alavanca ambidestra de retenção do ferrolho;
  • Alavanca de carregamento centralizada;
  • Guarda mão flutuante que não entra em contato direto com o cano contribuindo para a precisão dos disparos;
  • Conjunto de quatro trilhos Picatinny MIL-STD-1913, todos contendo marcações de referência, encontra-se distribuído ao redor do guarda mão permitindo o acoplamento de dispositivos táticos distintos. Na parte superior da arma o trilho se estende continuamente da caixa da culatra até o guarda mão;
  • Ponto de acoplamento do lança granadas GLM de 40mm;
  • Encaixe do carregador que permite maior compatibilidade com carregadores de diferentes tipos (HK-Metal, HK-Polímero, STANAG, Magpul EMAG, BETA C-Mag, M4, M16 e AR-15);
  • Alça de mira de troca rápida;
  • Massa de mira rebatível integrada ao guarda mão;
  • Coronha telescópica retrátil com seis pontos de ajuste;
  • Capacidade de acoplamento do supressor sem a necessidade de ferramentas;
  • Empunhadura ergonômica com espaço de armazenamento interno para baterias e kit de reparos.


Fotografia 2: Quadros operacionais do 1er RPIMa (1er Régiment de Parachutistes d'Infanterie de Marine) do Exército francês operando com o fuzil de assalto HK 416A5 com cano de 11". (Fonte: Disponível em: http://www.thepicta.com/media/1285171266991226833_3231476302 Acesso em: 31 mai. 2017).

Atualmente, em âmbito internacional, as unidades que operam com o HK 416A5 são: GPIs (Grupos de Pronta Intervenção), unidades da Polícia Federal brasileira localizadas em alguns estados da federação, responsáveis por responder prontamente às ocorrências de risco elevado; 13e RDP (13e Régiment de Dragons Parachutistes), regimento de Reconhecimento Especial do Exército francês; 1er RPIMa (1er Régiment de Parachutistes d'Infanterie de Marine), unidade OpEsp do Exército francês; KSK (Kommando Spezialkraefte), unidade OpEsp do Exército alemão; GSG9 (Grenzschutzgruppe 9), unidade contraterrorista da Polícia Federal alemã; USBP (United States Border Patrol), agência federal norte-americana de aplicação da lei, componente do Departamento de Segurança Interna dos EUA (Homeland Security), responsável por detectar e coibir que cidadãos estrangeiros e armas ilegais, além de contrabando e terroristas, entrem no território estadunidense; Comando de Forças Especiais Turco (Özel Kuvvetler Komutanlığı) unidades OpEsp das Forças Armadas da Turquia; APMM (Agensi Penguatkuasaan Maritim Malaysia) agência vinculada às Forças de Segurança da Malásia encarregada de resguardar as águas jurisdicionais malaias. 

Figura 2: Especificações técnicas do Fuzil de Assalto HK 416A5. (Fonte: Elaborado por Rodney Alfredo P. Lisboa com base em informações de catálogo fornecidas pela HK).


Para maiores informações consultar:
http://www.heckler-koch.com/en.html