quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A MÃO OCULTA QUE SEGURA O PUNHAL: Histórico das Forças Especiais do Exército Brasileiro (Parte 1)

Texto elaborado por Rodney Alfredo Pinto Lisboa.

Fotografia 1: Militares que participaram do Curso de Operações Especiais 57/1 ministrado pelo CIEspAet (Centro de Instrução Especializada Aeroterrestre [atual Centro de Instrução Paraquedista General Penha Brasil]).. (Fonte: Acervo do COpEsp).

No início da década de 1950, o NuDivAet (Núcleo da Divisão Aeroterrestre [denominação da Brigada de Infantaria Paraquedista entre 1953 e 1969]) do EB (Exército Brasileiro), localizado na Colina Longa, Vila Militar, Rio de Janeiro-RJ, cooperou em missões de busca e salvamento decorrentes, predominantemente, de acidentes aéreos. Nessa época, o esforço empregado nesse tipo de operação se baseava, sobretudo, no ímpeto e no espírito de corpo dos membros da tropa. Em 1953, face às dificuldades enfrentadas por ocasião da falta de planejamento, pessoal e meios adequados para a execução de tarefas dessa ordem, a Diretoria de Rotas Aéreas do Ministério da Aeronáutica identificou a necessidade de dispor de mão de obra especializada para conduzir missões de busca e salvamento. A partir dessa percepção, iniciou-se um trabalho conjunto envolvendo a Diretoria de Rotas Aéreas com o NuDivAet, então considerada como a principal unidade de elite do Brasil, com a finalidade de capacitar paraquedistas do EB na conduta de operações dessa natureza.
Por ocasião desta iniciativa, em 1956, atendendo a determinação do General de Brigada Djalma Dias Ribeiro (Comandante do NuDivAet), foi criada uma comissão, formada por integrantes do seu Estado Maior, com o objetivo de estabelecer normas de conduta para procedimentos de busca e resgate. Os trabalhos desenvolvidos pela comissão constituída pelo Major Gilberto Antônio Azevedo e Silva (diretor do Curso de Precursor Aeroterrestre [(atual Curso de Precursor Paraquedista]), pelos Capitães Augusto Vergner de Castro Araújo e Edmar Eudóxio Telesca, além do Tenente Sergio Barcelos Borges, resultaram na criação do Curso de Busca e Salvamento, ministrado pelos instrutores do CIEspAet (Centro de Instrução Especializada Aeroterrestre [atual Centro de Instrução Paraquedista General Penha Brasil]).


Fotografia 2: Major Gilberto Antônio Azevedo e Silva na época em que servia junto ao NuDivAet (Núcleo da Divisão Aeroterrestre [atual Brigada de Infantaria Paraquedista]). Em 1956 o Major Gilberto encabeçou a comissão que foi encarregada de estabelecer parâmetros para o Curso de Busca e Salvamento, posteriormente transformado no Curso de Operações Especiais. (Fonte: BRASIL, 2007, p. 10).

Nesta época, o Comandante do NuDivAet, devidamente acompanhado de seu Estado Maior e dos instrutores do CIEspAet, realizou uma viagem para os EUA com o objetivo de visitar as unidades paraquedistas estadunidenses em Fort Bragg, Carolina do Norte. Durante essa visita, os brasileiros foram convidados pelo Exército norte-americano a conhecer as OpEsp (Operações Especiais) desenvolvidas pelos Ranger e pelos recém-criados (entre 1952 e 1953) SFG-A (Grupo de Forças Especiais-Aerotransportado [Special Forces Goup-Airborne]).
Impressionado pelas capacidades demonstradas pelas unidades de elite norte-americanas, após retornar ao Brasil o General Djalma decidiu alterar o currículo do Curso de Busca e Salvamento de modo a transformá-lo em um Curso de OpEsp. Assim, valendo-se do conhecimento obtido no exterior, a comissão elaborou a grade curricular do novo curso, que mediante alterações sugeridas pelo Estado Maior do NuDivAet, foi efetivado, em caráter experimental, no dia 2 de dezembro de 1957.
Inicialmente o Curso de OpEsp foi estruturado visando capacitar os alunos, recrutados em caráter de voluntariado, na condução das seguintes tarefas: conquista de pontos chave; golpes de mão (ofensiva executada de surpresa com o intuito de aniquilar uma força inimiga e/ou destruir suas instalações/equipamentos; sabotagens; destruições; socorro e ajuda a populações ameaçadas por catástrofe; coleta de informações; enquadramento e instrução de guerrilheiros; captura de chefes inimigos; busca e salvamento (eventualmente).
Tendo sido nomeado o Major Gilberto como instrutor-chefe do curso, contribuíram para as instruções ministradas oficiais e graduados (sargentos) vinculados ao NuDivAet, bem como militares e civis de notável destaque em seus respectivos segmentos profissionais. 

Figura 1: Distintivo das Forças Especiais do Exército Brasileiro idealizado pelo Major Gilberto Antônio Azevedo e Silva por ocasião do 1º Curso de Operações Especiais. O título deste texto é uma referência direta a este distintivo. (Fonte: Acervo do COpEsp).

Na época em que foi publicado, o edital de inscrição do curso chamou a atenção de 35 militares paraquedistas, todos atraídos pelo ineditismo e pelas experiências que esse curso de combate poderia agregar em suas carreiras. Onze dos 35 candidatos desistiram antes mesmo de ser iniciada a bateria de exames clínicos e testes físicos requeridos para o ingresso no curso, que foi realizado em dois módulos: 1º Formação de Comando, com carga horária de 392 horas (realizado entre os dias 02/12/1957 e 13/03/1958); 2º Habilitação para Cumprimento de Missões Específicas de OpEsp, com carga horária de 133 horas (realizado entre os dias 02/06/1957 e 04/07/1957).
No relatório elaborado em consequência do progresso do Curso de OpEsp (então designado 57/1) foi proposto a constituição do 1° Destacamento de OpEsp, unidade que seria estruturada em quatro equipes de OpEsp, seção de comando, seção de manutenção e aprovisionamento, e seção de material de comunicações. Conforme proposto no relatório, cada uma das equipes de OpEsp deveria ser composta por nove operadores FE (Forças Especiais) qualificados nos seguintes cursos: precursor paraquedista; dobragem e manutenção de paraquedas e suprimento de ar; engenharia; saúde. Entretanto, ao final do curso, os 15 operadores concluintes (considerados como pioneiros da atividade OpEsp no EB) foram distribuídos pelas diferentes unidades do NuDivAet, permanecendo em condições de serem empregados a qualquer momento.

Figura 2: Relação de militares considerados como pioneiros da atividade OpEsp realizada pelo Exército Brasileiro. À exceção do Major Gilberto (instrutor), todos os demais foram alunos concluintes do Curso de Operações Especiais 57/1. (Fonte: Elaborado pelo autor). 

Tendo por finalidade viabilizar a participação de militares não qualificados como paraquedistas, na transição entre as décadas de 1950 e 1960, ocorreu a criação do Estágio de Comandos na estrutura curricular do Curso de OpEsp. Esse Estágio, ministrado inicialmente como primeira fase dos Cursos de Precursor Aeroterrestre e Operações Especiais, abriria espaço para o desmembramento do Curso de OpEsp de modo a originar (1966) o Curso de Comandos, que também seria administrado pelo CIEspAet.
Por assemelhar-se ao conceito operacional executado pelos SFG-A norte-americanos (caracterizados por lançarem mão, preferencialmente, de métodos de Ação Indireta), em 1964 o termo “Operações Especiais”, empregado até então em referência às atividades análogas desenvolvidas no Brasil, foi alterado para “Forças Especiais”. Assim, em 1967 o curso é realizado pela primeira vez ostentando sua nova denominação (Curso de Forças Especiais).
Posteriormente, a transferência do Coronel Joffre Coelho Chagas (chefe dos cursos de especialização do CIEspAet) para a AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras [estabelecimento de ensino localizado na cidade de Resende-RJ]), ocorrida no decorrer de 1966, possibilitaria o ingresso da temática OpEsp nos estágios de instrução ofertados na escola de formação de oficiais do Exército. Atuando como professor, o Coronel Joffre colaborou na criação do DIEsp (Departamento de Instrução Especializada [atual SIEsp/Seção de Instrução Especializada]), cuja finalidade era promover instruções de combate para os cadetes.
Em 1968, por ocasião de uma Portaria Ministerial datada de 12 de agosto, os Cursos de Forças Especiais e Comandos ministrados pelo CIEspAet foram oficialmente reconhecidos, sendo ativado o DFEsp (Destacamento de Forças Especiais), primeira unidade de OpEsp do Exército Brasileiro. Com sede na Colina Longa, Vila Militar-RJ, essa unidade inicialmente permaneceu sob autoridade do CIEspAet, sendo posteriormente subordinada à BdaAet (Brigada Aeroterrestre [denominação da Brigada de Infantaria Paraquedista entre 1969 e 1971])). Dotado com o valor de uma companhia, o DFEsp encontrava-se estruturado por dois DOFEsp (Destacamentos de Operações de Forças Especiais) e um DstCooCt (Destacamento de Coordenação e Controle), sendo que cada destacamento dispunha de 12 operadores FE (quatro oficiais e oito graduados [sargentos]). 


Fotografia 3: Instalações do NuDivAet (Núcleo da Divisão Aeroterrestre) localizado na Colina Longa, Vila Militar, Rio de Janeiro. (Fonte: Acervo do COpEsp).



segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Informativo FOpEsp, nº 7

Curso de Extensão Universitária

Fotografia 1: Militantes do grupo extremista Estado Islâmico. (Fonte: Disponível em: http://portalconservador.com/quem-financia-o-estado-islamico-desvendando-o-exercito-do-terror/ Acesso em: 20 ago. 2016).

Informo a todos os leitores do blog FOpEsp (Forças de Operações Especiais) sobre a realização de Curso de Extensão Universitária abordando a temática “PERCEPÇÃO E REAÇÃO AO TERRORISMO”. Considerado como uma manifestação de violência física e/ou psicológica com o objetivo de incutir medo e alcançar os objetivos estabelecidos por seus perpetradores, o terrorismo carece de métodos inovadores e diversificados para sua identificação, inibição e enfrentamento. Desenvolvido com a participação de profissionais dos principais países alvos de atentados terroristas na atualidade, o referido curso trata de forma simples e prática a filosofia moderna de combate ao terror.

Objetivo: Visa aguçar a capacidade de qualquer pessoa na identificação dos diferentes tipos de atentados terroristas e apresentar algumas das reações recomendadas nessas situações.

Conteúdo: Terrorismo Contemporâneo; Organizações Terroristas; Radicalização e Lobos Solitários; Percepção de uma ameaça terrorista; Identificação de atentado com armas Químicas / Biológicas / Radiológicas / Nucleares (QBRN); Identificação de artefatos explosivos; Estudo de casos recentes; Os 7 sinais de um atentado terrorista; Ações terroristas do crime organizado.

Formador: Coronel FERNANDO MONTENEGRO
Oficial da Reserva do Exército Brasileiro. Ex-operador das Forças Especiais e Comandos do Exército Brasileiro; Ex-Oficial de Operações e Inteligência do Destacamento de Contraterrorismo, Mestrado em Ciências Militares; Conduziu treinamentos para: SEALs (Marinha dos EUA), Special Forces (Exército dos EUA), Legião Estrangeira francesa e outras FOpEsp (Forças de Operações Especiais) brasileiras e internacionais. Professor do Curso de Pós Graduação em Gestão e Direção de Segurança na Universidade Autónoma de Lisboa. Comandou a ocupação dos Complexos do Alemão e Penha em 2011 e 2012-Rio. Instrutor de Krav Maga e Faixa Preta de Karatê. Consultor de Segurança, Diretor de Segurança em Portugal, Auditor do Curso de Defesa Nacional de Portugal, Comentarista de Segurança convidado da GLOBONEWS.

Público alvo: Aberto para interessados de qualquer segmento. Indispensável aos profissionais de segurança. Relevante, principalmente, para àqueles que viajam (a negócios ou em férias) para países onde o número de atentados tem se multiplicado (América do Norte, Europa, Oriente Médio, etc.).

Certificado: Emissão de certificado de Extensão Universitária.

Local: Rua Padre Chico, n° 93, Pompéia, São Paulo-SP.

Data: 14/09/2016

Duração: Início: 08:00hs  Término: 18:00hs

Número de vagas: 40

Investimento: R$570,00

Informações e Reservas: Tel. (11) 3666-9893   E-mail: financeiro@jseg.net

Realização: Jornal da Segurança; Escola Superior de Segurança; FACEI (Faculdade Einstein).




sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Concepção e Engajamento das Forças Especiais do Exército dos EUA no Conflito do Vietnã (Parte Final)

Texto elaborado por Rodney Alfredo Pinto Lisboa.


Fotografia 1: Operador do 5th SFG-A posa para foto com combatentes montagnards recrutados para o programa CIDG (Grupo de Defesa Irregular Civil) responsável por confrontar o vietcongue e o EVN (Exército do Vietnã do Norte) na região das montanhas centrais vietnamitas. (Fonte: Disponível em: http://seanlinnane.blogspot.com.br/2011/11/special-forces-equals-green-berets-got.html Acesso em: 17 ago. 2016). 

Dividida em cinco territórios distintos, compreendendo a Cochinchina, Annan e Tonquim (regiões sul, central e norte do Vietnã, respectivamente), além do Laos e do Camboja, a Indochina Francesa (assim conhecida por ocasião dos eventos ocorridos durante a Segunda Guerra do Ópio [1856-1860]) foi palco de um dos maiores conflitos armados travados na segunda metade do século XX. Localizada na região sudeste da Ásia, a Indochina viu arrefecer a administração francesa no decorrer da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) quando a França foi levada a render-se perante a ameaça representada pela Alemanha Nazista. Estando o governo francês isolado na cidade de Vichy (cidade sede das Forças Livres Francesas que lutavam contra a ocupação do país pelos alemães), a administração colonial na Indochina mostrava-se frágil e deteriorada em virtude da incapacidade do governo central de prover qualquer auxílio às possessões asiáticas.
Aproveitando-se da fragilidade francesa na região, o Japão, que juntamente com a Alemanha e a Itália compunha as forças do Eixo, tomou o controle da Indochina em março de 1945. Posteriormente, com a rendição das tropas japonesas, que colocou ponto final nas hostilidades da Segunda Grande Guerra, movimentos nacionalistas, que haviam se unido para criar a Frente pela Independência do Vietnã (Vietminh), invadiram a cidade de Hanói (futura capital do Vietnã do Norte) assumindo o controle sobre região norte do país e proclamando a República Democrática do Vietnã em setembro de 1945.
Através da Conferência de Potsdam (Alemanha) realizada em 1945, as grandes potências concordaram que tropas britânicas (ao sul) e chinesas (ao norte) fossem encarregadas de organizar a retirada das tropas japonesas da Indochina. Contando com a colaboração britânica, a França foi reintroduzida no território indochinês retomando a administração na região sul. Embora incomodado com a presença francesa, Ho Chi Minh (líder do Partido Comunista e chefe do governo norte-vietnamita) fez um acordo com a França, permitindo a presença temporária de tropas no sul desde que os franceses reconhecessem a legitimidade da República Democrática do Vietnã e estabelecessem um prazo para a retirada de suas tropas. Entretanto, esse tratado foi ignorado em virtude da persistência francesa em manter um governo colonial na Cochinchina. A posição tomada pela França foi o estopim para o conflito entre as tropas francesas e o Vietminh, que recebeu apoio substancial da China e da URSS.



Figura 1: Insígnia de ombro usada pelos operadores das Forças Especiais do Exército dos EUA. (Fonte: Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Special_Forces_(United_States_Army) Acesso em: 17 ago. 2016).

Nos primeiros anos da década de 1950, o impasse gerado pela divisão do território vietnamita em dois governos antagonistas (a República Democrática do Vietnã no norte e o governo colonial francês no sul) levou as tropas francesas a conduzirem uma ofensiva que confrontaria o poder de fogo francês contra a capacidade de um exército formado essencialmente por camponeses. Contudo, em maio de 1954, os franceses foram subjugados pelos vietcongues na pista de pouso de Dien Bien Phu, localizada a 300km a oeste de Hanói. Finalmente, em julho do mesmo ano, por ocasião da Conferência de Genebra (Suíça), tratativas entre a França e o Vietminh acabaram por definir um acordo militar que dividia o Vietnã na altura do paralelo 17, originando a República do Vietnã (Vietnã do Sul [sob controle francês]) e a República Democrática do Vietnã (Vietnã do Norte [sob autoridade de Ho Chi Minh]).
Iniciada a década de 1960, John Fitzgerald Kennedy, então presidente dos EUA, mostrava-se preocupado com a crescente influência comunista no Vietnã. A formação da FNL (Frente Nacional para Libertação do Vietnã [cujos combatentes ficaram conhecidos pelo termo “vietcongue”) tornou ainda mais frágil à situação sociopolítica do Vietnã do Sul, à medida que os vietcongues atacavam guarnições de segurança do governo principalmente nas regiões mais afastadas das grandes cidades. A vulnerabilidade do autoritário e incipiente governo sul-vietnamita levou o presidente Ngo Dinh Diem a decretar estado de emergência e solicitar maior apoio militar aos EUA.
Atendendo ao apelo do governo sul-vietnamita, em 1961 Kennedy enviou quadros operacionais do 1st SFG-A para treinar o exército daquele país em táticas de guerrilha. Embora tenham desembarcado oficialmente em solo vietnamita apenas no final da década de 1950, quadros operacionais das FEsp (Forças Especiais) estadunidenses já atuavam na região provendo consultoria ao ERV (Exército da República do Vietnã) desde o início dos anos 1950.
Para se prepararem adequadamente para o conflito, as FEsp norte-americanas absorveram os ensinamentos do GCMA (Grupamento de Comandos Mistos Aerotransportados [Groupement de Commandos Mixtes Aéroporté]) francês nas ações levadas à efeito por ocasião da Primeira Guerra da Indochina (1946-1954), bem como da luta contra insurgente efetuada pelo destacamento de Malayan Scouts e operadores do SAS (Serviço Aéreo Especial [Special Air Service]) britânico na Malásia. A expertise francesa evidenciou a relevância da organização de guerrilhas étnicas, enquanto a experiência britânica apresentou-lhes as bases da doutrina insurrecional, segundo a qual era necessário reunir a população nativa em aldeias denominadas “povoados estratégicos”, para, posteriormente, cortar as linhas de suprimentos dos insurretos, levando o combate para o coração da selva onde os nativos recrutados dominavam o terreno.  

Fotografia 2: Operador do 5th SFG-A atuando como consultor das tropas do ERV (Exército da República do Vietnã) em uma patrulha ribeirinha conduzida nas proximidades da fronteira com o Camboja. (Fonte: WIEST; McNAB, 2016, p. 33).

Com a morte de Kennedy em 1963, Lyndon Johnson assumiu a presidência dos EUA focando a questão do Vietnã como decisiva para conter o avanço do comunismo na Ásia. Ele não apenas intensificou o auxílio militar dado ao Vietnã do Sul, como também autorizou ações clandestinas de tropas norte-americanas contra alvos do Vietnã do Norte. O envolvimento efetivo dos EUA na Guerra do Vietnã (1955-1975) deu-se a partir de 30 de julho de 1964, em virtude de um suposto ataque realizado por forças norte-vietnamitas contra o USS Maddox, contratorpedeiro estadunidense que patrulhava o golfo de Tonquim. Em represália, a Força Aérea norte-americana (US Air Force) bombardeou o território do Vietnã do Norte dando início à guerra aérea.
O Vietnã era constituído, em grande parte, por minorias étnicas tribais que eram ignoradas pelo governo do Vietnã do Sul. Valendo-se dessa fragilidade, o vietcongue impunha sua autoridade explorando e cooptando essas minorias. Com o intuito de minimizar a influência inimiga, expandir a presença do governo, e trazer a população carente para a luta nacional, as forças de defesa optaram por empregar ElmOpEsp (Elementos de Operações Especiais) norte-americanos para organizar forças locais de autodefesa compostas por membros dessas comunidades tribais.
No Vietnã as atividades das FEsp norte-americanas concentravam-se em duas áreas principais: ações nas montanhas da região central do Vietnã; operações secretas conduzidas no Laos e no Camboja (em um tratado formalizado em 1962, os EUA e o Vietnã do Norte se comprometiam a respeitar a neutralidade desses dois países asiáticos). Em 1964, ano em que a guerra começou a se intensificar, o contingente de tropas especiais dos EUA presente no Vietnã já havia treinado cerca de 1.900 montagnards (termo usado para designar os povos nativos da região das montanhas centrais do Vietnã) com o objetivo de emprega-los no programa CIDG (Grupo de Defesa Irregular Civil [Civilian Irregular Defense Group]), destinado a defender as aldeias e emboscar o movimento vietcongue e o EVN (Exército do Vietnã do Norte).
No ano seguinte, as FEsp organizaram a primeira “Força MIKE” (Força de Ataque Móvel [Mobile Strike Force Command]), composta por 1.800 guerreiros tribais mais bem preparados que os integrantes das CIDG. Agindo como uma força de reação rápida, cabia à Força MIKE a execução de patrulhas de reconhecimento, busca e destruição de tropas/alvos inimigos.
No início da guerra, os ElmOpEsp do 1st, 5th e 7th SFG-A foram engajados no conflito. Contudo, a partir de 1965 todas as OpEsp à cargo do Exército passaram a ser de responsabilidade do 5th SFG-A. Ainda que tenham se envolvido em inúmeras situações de combate, as FEsp também dedicaram-se às ações de desenvolvimento social (construção de rodovias, pontes, postos de saúde, entre outros), a maior parte delas realizadas na região das montanhas centrais com o objetivo de garantir suporte às tribos montagnards.
Enquanto durou a guerra, o Exército dos EUA e suas FEsp valeram-se de métodos distintos para o desempenho de suas funções. Enquanto o Exército posicionava-se de maneira favorável ao governo sul-vietnamita para ganhar apoio da população civil, as FEsp, por sua vez, operando em uma região onde o governo tinha pouco controle, acabavam por ocupar o papel que, na teoria, seria do governo, fato que fez com que as FEsp angariassem a simpatia e o apoio das populações tribais.

Fotografia 3: Quadros operacionais do 5th SFG-A e nativos montagnards da 5ª Força MIKE. Na imagem, os tribais apresentam armas inimigas capturadas aos militares norte-americanos. (Fonte: ROTTMAN; VOLSTAD, 1999, p. 48). 

Operações de inteligência conduzidas pela CIA (Agência Central de Inteligência [Central Intelligence Agency]) identificaram a existência de tropas norte-vietnamitas operando em terreno laociano e cambojano. Essa descoberta precipitou a necessidade de dispor homens para confrontar as forças inimigas além das fronteiras do Vietnã do Sul com o Laos e o Camboja (países considerados neutros). Para esse fim, em 1964 seria constituído o SOG (Grupo de Estudo e Observação [Studies and Observations Group]), unidade dirigida pelo MACV (Comando Militar de Assistência ao Vietnã [Military Assistance Command, Vietnam]). Composta de forma heterogênea, o SOG era composto por dois ou três militares norte-americanos qualificados como FEsp, responsáveis por recrutar e treinar dezenas de habitantes locais para que pudessem realizar missões de reconhecimento e sabotagem contra os vietcongue e o EVN. As missões desempenhadas pelos membros do SOG no Laos e no Camboja eram designadas por seu nome código, Daniel Boone (posteriormente Salem House) para o Laos, e Pikes Hill para o Camboja.
Criadas em decorrência do programa Phoenix, idealizado pela CIA no intuito de identificar e eliminar a organização político-administrativa vietcongue), as PRU (Unidades de Reconhecimento Provisórias [Provisional Reconnaissance Units]) tinham a tarefa de recrutar e formar, valendo-se de operadores SEAL e FEsp norte-americanos, pequenas unidades compostas por nativos, mercenários e desertores da FNL para eliminar integrantes e militantes do vietcongue.
A partir de 1970, o 5th SFG-A começou a reduzir gradativamente suas atividades operacionais, dando início ao processo de retirada de seu contingente do território vietnamita, fato que ocorreria definitivamente em março do ano seguinte. Entretanto, operadores da unidade continuariam a participar de operações de inteligência até a derrocada do governo sul-vietnamita, ocorrida no final de abril de 1975.

Referências

ROTTMAN, Gordon L.; VOLSTAD, Ron. US Army Special Forces 1952-84. Elite Series 4. Oxford: Osprey Publishing, 1999.

THOMPSON, Leroy. U.S. Special Operations Forces in the Cold War. The G.I. Series. London: Greenhill Books, 2002.

WIEST; Andrew; McNAB, Chris. A História da Guerra do Vietnã. São Paulo: M. Books, 2016.




segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Concepção e Engajamento das Forças Especiais do Exército dos EUA no Conflito do Vietnã (Parte 1)

Texto elaborado por Rodney Alfredo Pinto Lisboa.


Fotografia 1: Operador do 5th SFG-A (5° Grupo de Operações Especiais-Aerotransportado) interagindo com tropas sul-vietnamitas. (Fonte: THOMPSON, 2002, p. 12). 

Para que se possa contextualizar o histórico das Forças Especiais (FEsp) do Exército dos EUA, primeiramente é necessário esclarecer alguns aspectos acerca da terminologia. Para a sociedade civil e para considerável parcela da sociedade militar, pouco familiarizadas com o ambiente das unidades militares de elite, o termo Forças Especiais é empregado de forma análoga à expressão Operações Especiais (OpEsp). Apesar da similaridade, uma vez que ambas estão relacionadas às atividades militares de natureza não convencional, a definição contextual delas é absolutamente distinta. As OpEsp englobam uma ampla diversidade de tarefas, cuja singularidade, estão além das capacidades operacionais das tropas convencionais. Por sua vez, as FEsp dedicam-se à categorias específicas de OpEsp que enfatizam o método de Ação Indireta (quando não há contato direto com as forças inimigas) no intuito de moldar o ambiente operacional e/ou prover suporte (assessoramento/treinamento) para forças militares ou paramilitares de nações amigas envolvidas em situações de crise e/ou conflito.
Embora a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) balize o emprego sistemático de OpEsp (Operações Especiais), foi durante a Guerra Fria (1947-1991) que as FFAA (Forças Armadas) norte-americanas estabeleceram o conceito de emprego para suas FEsp. O choque de ideias instaurado após a Segunda Guerra entre os blocos capitalista (liderado pelos EUA) e socialista (liderado pela URSS [União das Repúblicas Socialistas Soviéticas]), acirrou os ânimos instigando uma atmosfera de antagonismo ideológico ao redor do mundo. Em alguns casos, essa incompatibilidade levou ao desencadeamento de lutas regionais (guerras de conquista) ou violentas manifestações de insurgência (rebelião contra uma autoridade constituída). Essa atmosfera belicosa conferia aos Estados vinculados a ambos blocos a necessidade de dispor de organizações aptas a executar ações clandestinas (realizadas de forma sigilosa, distante da opinião pública e sem denunciar o envolvimento do país que as patrocina) nas regiões globais onde fossem solicitadas.


Figura 1: Oficiais do Exército dos EUA considerados como fundador (McClure) e co-fundadores (Fertig, Volckman e Bank) das FEsp norte-americanas. (Fonte: Elaborado pelo autor). 

Nos EUA, coube ao Brigadeiro General Robert Alexis McClure, comandante da OPW (Divisão de Guerra Psicológica do Exército [Office of Psychological Warfare]), a iniciativa de promover a criação de unidades vocacionadas para este fim. Convicto de suas percepções, e enfrentando a resistência da ala conservadora da Força Terrestre (cujo pensamento estava enraizado nos conceitos da guerra clássica e direcionado para o contexto da guerra nuclear), em 1951 McClure acabou por instituir e vincular uma Seção de Operações Especiais ao órgão que comandava. Liderada pelo Coronel Wendell Fertig, a Seção de Operações Especiais (Special Operations Section) da OPW passou a operar tendo os Coronéis Russel William Volckman e Aaron Bank, respectivamente, como Oficial de Planejamento e Diretor de Operações. Veteranos da Segunda Guerra, tanto Fertig, quanto Volckman e Bank, haviam prestado relevante contribuição na assessoria a movimentos de guerrilha que se opunham às tropas do Eixo nos teatros da Europa e do Pacífico. Adicionalmente, foram incorporados à Seção de Operações Especiais antigos integrantes da OSS (Agência de Serviços Estratégicos [Office of Strategic Services]), serviço de inteligência dos EUA durante a Segunda Guerra, e dos Merrill`s Maraunders, tropa norte-americana constituída entre 1943 e 1944 para conduzir operações irregulares na Birmânia (atual Myanmar) contra os japoneses.
Embora não tivesse oferecido condições para o desencadeamento de OpESp, a Guerra da Coréia (1950-1953) teve importância como primeiro campo de experimentação para a OPW. 


Figura 2: Insígnia dos SFG-A usado sobre o distintivo identificador da unidade junto à boina. Expresso em latim  o lema (Para Libertar os Oprimidos) que aparece ao longo do viés remete ao modo de agir (Ação Indireta) das FEsp  norte-americanas. (Fonte: Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Special_Forces_(United_States_Army) Acesso em: 13 ago. 2016).

Em junho de 1952, sob o comando do Coronel Aaron Bank, foi criado o 10th SFG-A (10° Grupo de Operações Especiais-Aerotransportado [10th Special Forces Group-Airborne]) foi ativado. A unidade recém instituída reunia um grupo heterogêneo de voluntários oriundos de diferentes unidades do Exército, incluindo soldados jovens inexperientes e veteranos de conflitos passados.
A eclosão de uma revolta trabalhista, perpetrada por operários da construção civil na Alemanha Oriental em junho de 1953, tornou-se generalizada incitando a população contra o governo. Ainda que o levante tenha sido rápida e violentamente reprimido pelas autoridades locais (com ajuda de forças soviéticas), o evento despertou a atenção do Exército norte-americano para a necessidade de dispor de tropas na Europa a fim de responder prontamente às situações de crise. Diante dessa exigência, grande parte do contingente do 10th SFG-A foi desdobrado para a Alemanha, permanecendo nos EUA um pequeno grupo de oficiais e graduados (sargentos), além de soldados recém-integrados e/ou com pouco treinamento. Em setembro do mesmo ano, esses remanescentes acabariam por constituir o 77th SFG-A (para adequar-se à configuração estabelecida pelo Exército, essa unidade seria redesignada como 7th SFG-A em maio de 1960).
Historicamente, desde sua gênese, os SFGs foram estruturados de forma particular, sendo organizados em diferentes equipes denominadas ODA (Destacamento Operacional Alpha [Operational Detachment Alpha]). Também conhecidos como “A-Team”, cada ODA era constituído por 12 homens distribuídos conforme sua MOS (Especialidade Ocupacional Militar [Military Occupational Specialty]): operações; inteligência; armamentos; comunicações; engenharia; saúde. Além de suas especialidades, cada operador deveria ser versado em operações de contra insurreição, recrutamento político de população civil, instrução militar de guerrilheiros e incursões de profundidade na retaguarda do inimigo com o suporte de irregulares locais. Na estrutura organizacional dos SFGs, quatro ODA reunidos formavam um ODB ou B-Team, enquanto três ODB compunham um ODC ou C-Team.


Fotografia 2: Quadros operacionais de um ODA (Destacamento Operacional Alpha) do 5th SFG-A posam para foto obtida no Vietnã. (Fonte: Disponível em: http://www.onesixthwarriors.com/forum/attention-detail-1-1-talk/45875-there-any-real-african-american-special-forces-guys.html Acesso em: 13 ago. 2016)

A partir da segunda metade da década de 1950, temendo os reflexos dos movimentos insurrecionais de libertação na região sudeste do continente asiático, muitos dos quais eram motivados pela crescente influência soviética, o governo norte-americano decidiu enviar homens do 77th SFG-A para operar em diferentes países da Ásia. Nesse período seria ativado na cidade japonesa de Okinawa o 1st SFG-A.
Foi durante o governo do presidente John Fitzgerald Kennedy (1961-1963) que as FEsp norte-americanas sofreram grande incremento. Em 1961, em uma visita oficial a Fort Bragg, Kennedy mostrou-se positivamente impressionado com as capacidades na condução da modalidade de guerra não convencional demonstradas pelo 7th SFG-A. Convicto de que àquela modalidade de enfrentamento era a mais adequada para o tipo de guerra que se configurava no cenário internacional, o presidente determinou a expansão das Forças Especiais. A iniciativa presidencial deu origem ao 5th SFG-A (1961), 3th, 6th e 8th SFG-A (1963). A visita do presidente Kennedy acabou por formalizar o uso da simbólica “boina verde”, usada até então pelos quadros operacionais das FEsp de forma não-oficial.
Instituídas em 1959 inicialmente como tropas inativas (reserva) do Exército e da Guarda Nacional (força militar de reserva estacionada em todos os estados do país sob comando dos respectivos governadores) pequenas unidades de FEsp sofreram uma expansão em 1961 por ocasião da decisão presidencial, passando a formar o 2nd; 9th, 11th, 12th, 13th, 17th e 24th SFG-A da reserva do Exército, além do 16th, 19th, 20th e 21st SFG-A da reserva da Guarda Nacional. Posteriormente (1966), esses grupos acabariam se fundindo para formar o 11th e 12th SFG-A da reserva do Exército, além do 19th e 20th SFG-A da Guarda Nacional. 



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Evolução do Submarino como Plataforma de Apoio às Operações Especiais

Texto adaptado da dissertação de mestrado de Rodney Alfredo Pinto Lisboa.


Fotografia 1: Operador SEAL da Marinha dos EUA em procedimento de infiltração submarina. (Fonte: Disponível em: http://www.inquisitr.com/3096309/u-s-navy-will-review-training-procedures-after-third-trainee-dies-in-california-pool-during-training-exercise/ Acesso em: 9 ago. 2016).

O submarino é uma máquina de guerra projetada com o objetivo de transportar sua tripulação abaixo da superfície dos mares e oceanos, para que possa, valendo-se dos aparatos tecnológicos que lhes forem disponibilizados, alvejar alvos inimigos localizados na água e/ou na terra.
Diferente do que ocorre com os navios de superfície, o submarino tem a capacidade singular de controlar sua flutuabilidade, submergindo ou emergindo conforme a necessidade. No contexto estratégico, é a capacidade ímpar de ocultação (navegando submerso por longos períodos sem que o inimigo perceba sua presença) que confere ao submarino uma significativa vantagem em relação às embarcações de superfície. Essa particularidade, essencial para o desempenho das OpEsp (Operações Especiais) subaquáticas, sobressai a plataforma submarina como o principal vetor de infiltração/exfiltração de unidades de elite que operam como MECs (Mergulhadores de Combate).
Embora tenham sido empregados de forma rudimentar no decorrer da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), foi somente durante a Segunda Grande Guerra (1939-1945) que os submarinos passaram a ser empregados sistematicamente como plataforma de apoio às OpEsp. Destacados como precursores no desenvolvimento de métodos de infiltração/exfiltração e sabotagem submarina, os MECs italianos da Xª MAS (10ª Flotilha de Meios de Assalto [Xª Flottiglia Mezzi d'Assalto]) eram lançados dos submarinos italianos das Classes Perla (Ambra e Iride) e Adua (Gondar e Scirè), com o objetivo de penetrar os portos ocupados (Malta, Gibraltar e Alexandria) por tropas britânicas no mar Mediterrâneo a fim de assediar os navios lá atracados fixando ogivas explosivas nas partes imersas dos cascos dessas embarcações.


Fotografia 2: Maquete do USS Dallas (SSN-700), Submarino Nuclear de Ataque da classe Los Angeles. Conforme é possível observar, esse modelo transporta (sobre o casco, à ré da vela) um sistema DDS com capacidade para abrigar um SDV vocacionado para conduzir infiltração/exfiltração de MECs. (Fonte: Maquete desenvolvida pela Antares Maquetes, empresa especializada em arte naval e militaria [www.antaresmaquetes.com]).
 


Para o desempenho de suas funções como plataforma de lançamento/recolhimento de MECs, os submarinos italianos eram dotados com a capacidade de liberar os quadros operacionais da Xª MAS em posição mergulhada (imersão), valendo-se de uma guarita de lançamento (câmara estanque) cujo ambiente permitia realizar os procedimentos de inundação e equalização gradativa, possibilitando que os operadores se familiarizassem com o meio aquático circundante. Por possuírem tal capacidade, os submarinos italianos receberam de três a quatro contentores estanques cilíndricos aptos a acomodar um veículo de transporte de MECs (denominado Maiale) por contentor. Esses compartimentos foram incorporados às embarcações a fim de favorecer o transporte dos Maiale e facilitar sua liberação junto ao ambiente oceânico.
A técnica desenvolvida pelos MECs italianos era tão eficiente, que os procedimentos de lançamento/recolhimento subaquático de operadores levados à efeito em períodos posteriores à Segunda Guerra constituíam modernizações da metodologia por eles desenvolvida no conflito da década de 1940.
O fim da Guerra Fria (1947-1991) e os efeitos da globalização favoreceram o surgimento de novos atores (sem nenhum vínculo estatal) no cenário internacional, muitos dos quais acabaram por optar pela violência sem observar qualquer regra ou restrição para alcançar seus objetivos. Por ameaçarem as linhas de circulação do comércio marítimo de modo e comprometer a economia mundial, a comunidade internacional considera a pirataria, o terrorismo e os conflitos locais como sendo o maior risco à segurança das navegações. Assim, impossibilitadas de negligenciar a possibilidade de se envolverem em um conflito simétrico contra outros Estados soberanos, e tendo que se adaptar à nova modalidade de enfrentamento perpetrada de forma assimétrica pelas denominadas “novas ameaças” (insurreições; crime organizado; narcotráfico; pirataria; terrorismo; entre outros), as Forças Navais nacionais tiveram que se organizar para assegurar a presença e a vigilância constantes nas áreas marítimas próximas ao litoral, conduzindo uma reação adequada em caso de necessidade.




Com a alteração do cenário de ação migrando das águas oceânicas (predominantes no período da Guerra Fria) para as proximidades do litoral, evidenciou-se a necessidade de empregar submarinos menores e mais versáteis (dotadas com maior controle de velocidade e navegabilidade) para realizar o tipo de operação requerido nesse cenário.
No início do século XXI, devido à GWOT (Guerra Global contra o Terrorismo [Global War on Terrorism]) iniciada pelo governo norte-americano do presidente George W. Bush após a série de atentados contra os EUA realizados pela al-Qaeda em 11 de setembro de 2001, o modus operandi do submarino como plataforma de apoio às atividades conduzidas pelas FOpEsp (Forças de Operações Especiais) sofreu grande incremento. Com o objetivo principal de combater os membros da al-Qaeda e do Talebã, o governo dos EUA mobilizou seu aparato militar para eliminar a ameaça terrorista em uma sucessão de Operações Militares Centradas em FOpEsp (Special Forces Centric Warfare). Como consequência desse processo, a AQN-ExOrd (Ordem de Execução da Rede al-Qaeda), emitida secretamente por Donald Rumsfeld (então secretário de Defesa dos EUA) em 2004, autorizava as FOpEsp a realizar campanhas contra o terrorismo em qualquer parte do mundo onde se suspeitasse que membros da al-Qaeda atuassem ou se mantivessem refugiados.


Fotografia 3: Submarino Nuclear de Ataque USS California (SSN-781). As embarcações da classe Virginia, da qual faz parte o USS California, foram desenvolvidas para atender à demanda da "Guerra de Litoral" e são vocacionadas para operar em apoio às FOpEsp valendo-se de recursos como  um Centro de Gerenciamento de Batalha e a hospedagem dos sistemas ASDS e SDV. (Fonte: Disponível em: https://www.navy.com/about/gallery.html Acesso em: 9 ago. 2016). 

Adequando-se a doutrina de condução da GWOT, em 2005 a Marinha dos EUA criou o Centro de Submarinos para Operações de Contraterrorismo (Center of Submarine Counter-terrorism Operations) com o propósito de reconfigurar SSBN (Submarino com Propulsão Nuclear Armado com Mísseis Balísticos) da classe Ohio capacitando-os a operar como SSGN (Submarino com Propulsão Nuclear Armado com Mísseis de Cruzeiro), de modo a fornecer suporte aos quadros operacionais das FOpEsp. Para tanto, além da capacidade para receber o VLS (Sistema de Lançamento de Mísseis Tomahawk [Tomahawk Vertical Launch System]), as embarcações são capazes de transportar, em uma interface modular reconfigurável, cargas alternativas nos tubos anteriormente reservados para os mísseis balísticos. Entre essas cargas alternativas destacam-se, principalmente: o conjunto de sensores externos capaz de ampliar o campo de observação do submarino (área a qual a embarcação é capaz de observar e/ou coletar dados); o equipamento a ser utilizado em missão por um destacamento FOpEsp embarcado de até 66 operadores. Outra inovação, incorporada a bordo sobretudo em decorrência do desenvolvimento das embarcações norte-americanas da classe Virginia, foi a criação de um Centro de Gerenciamento de Batalha (Battle Management Center), ambiente apto para conduzir o planejamento, comando e controle das operações realizadas pelo destacamento FOpEsp. Também é digna de nota a capacidade dos SSGN de hospedar, sobre a estrutura do casco atrás do torreão, um mini submarino ASDS (Sistema Avançado de Transporte de Mergulhadores [Advanced SEAL Delivery System]) ou até dois DDS (Casulo Externo Resistente à Pressão [Dry Deck Shelter]) com capacidade para armazenar, lançar e/ou recolher um SDV (Veículo de transporte de MECs [SEAL Delivery Vehicle]) por compartimento.




quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Soldado perfeito: identificando as bases formadoras do Elemento de Operações Especiais

Texto elaborado por Rodney Alfredo Pinto Lisboa.

Fotografia 1: Quadros operacionais do MARSOC (Comando de Operações Especiais dos Fuzileiros Navais) norte-americanos executam treinamento de tiro de combate em preparação para o Exercise Combined Resolve III realizado na base militar de Grafenwoehr, Alemanha. (Fonte: Disponível em: https://www.reddit.com/user/Bobio27/ Acesso em: 2 ago. 2016).

Formulado por James F. Dunnigan, historiador e analista-político militar norte-americano, o termo “soldado perfeito” é empregado em referência a uma categoria de militar cujo rigoroso padrão de preparação o capacita a desempenhar as missões mais exigentes, em qualquer ambiente (terrestre, aéreo e/ou marítimo), de forma mais eficiente e com menos recursos (humanos e materiais) que o soldado convencional. Quando considerado pela perspectiva de Dunnigan, a constituição do soldado perfeito, expressão empregada em analogia ao ElmOpEsp (Elemento de Operações Especiais), é reflexo de uma combinação de fatores:  disponibilidade de investimento do Estado patrocinador, efetividade e paciência na condução do processo de seleção e treinamento, disponibilidade de fornecer aparato tecnológico no “estado da arte”, liderança com capacidade de gerenciar habilidades distintas em um sistema de responsabilidade compartilhada. Conforme é possível notar na série de fatores mencionados, Dunnigan aprofundou-se na análise de componentes extrínsecos (aspectos políticos, históricos, doutrinários, entre outros), mas mostra-se comedido (talvez intencionalmente) ao considerar os elementos intrínsecos (capacidades físicas, psicológicas e intelectuais) relacionados ao indivíduo que dispõe do conjunto de atributos que o habilitam a se tornar um ElmOpEsp.  
Embora todos os fatores apontados por Dunnigam sejam de fundamental importância para promover a formação dos quadros operacionais das FOpEsp, são as capacidades humanas que determinam a predisposição ou não de um indivíduo para desempenhar esta ou àquela atividade. Nesse contexto, devemos entender disposição como uma característica geneticamente determinada que favorece o desenvolvimento ou aquisição de certa qualidade (física) ou traço (personalidade). Conforme apresentada, a predisposição para desempenhar determinada atividade está diretamente relacionada ao talento, entendido como sendo um grau muito elevado de aptidão que é favorecido por estruturas físicas (anatômicas; fisiológicas; motoras) e psicológicas desenvolvidas desde o nascimento, que influenciadas por características ambientais (aspectos socioculturais), favorecem a aquisição e diversificação de conhecimentos relacionados a atividades específicas.
Como todas as tarefas desempenhadas pela espécie humana, sejam elas de natureza simples ou complexa, as capacidades que orientam/direcionam nossa aptidão para desempenhar uma determinada atividade não se manifestam repentinamente por ocasião do desejo (em geral os candidatos às FOpEsp são voluntários) e/ou da competência do processo formativo. Assim como ocorre com qualquer outra atividade profissional, tornar-se um ElmOpEsp é resultado da conciliação favorável entre características individuais com condições ambientais, de modo que o indivíduo demonstre ser possuidor dos predicados básicos necessários quando lhe for dada a oportunidade de explorá-las e desenvolvê-las.
Tais predicados manifestam-se por ocasião da exploração de características intrínsecas (inerentes ao indivíduo), as quais encontram-se distribuídas em três categorias distintas:

Figura 1: Características intrínsecas aos seres humanos. (Fonte: Elaborado pelo autor).

Embora seja um processo extremamente rigoroso, que busca explorar os limites das capacidades físicas e psicológicas dos candidatos objetivando detectar e eliminar indivíduos que não apresentem os requisitos exigidos, os programas de formação de ElmOpEsp não estão isentos de promover pessoas que dispõem das capacidades individuais requeridas, mas apresentam problemas com relação aos aspectos de ordem extrínsecas (influenciadas pelo ambiente no qual o indivíduo se desenvolve).
As características extrínsecas encontram-se sujeitas a uma série de variáveis que influenciam na formação da personalidade (individualidade), determinando o modo como as pessoas pensam e/ou agem. Nesse aspecto, os estímulos sociais vivenciados no decorrer da vida são imprescindíveis para a constituição do caráter. Por ser o ethos das tropas especiais um conjunto de hábitos e costumes extremamente respeitado pelos integrantes da comunidade OpEsp, responsável por criar uma intensa relação de pertencimento e camaradagem, indivíduos que não coadunam com esses princípios demonstram grandes dificuldades em compreender e/ou se adaptar ao meio em questão.
Na tarefa de detectar indivíduos dotados de capacidades individuais e princípios morais compatíveis com as exigências dos programas de avaliação, seleção e treinamento de ElmOpEsp, seria oportuno que o processo de formação de operadores, além de sistemático, diversificado e continuado (mantendo-os atualizados com as TTP [Táticas, Técnicas e Procedimentos] e os materiais [armas e equipamentos empregados]), dispusesse de uma equipe interdisciplinar (Psicólogo; Profissional de Educação Física; Assistente Social; entre outros) em condições de oferecer o suporte necessário para que os requisitos intrínsecos e extrínsecos sejam plenamente observados na busca pela excelência postulada pelas unidades militares e policiais de elite.

Fotografia 2: Policiais do COE (Comandos e Operações Especiais) do Paraná posicionados em resposta a uma ocorrência com reféns no município de Joaquim Távora, região norte do estado. (Fonte: Disponível em: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/01/10/apos-12-horas-homem-liberta-mais-um-refem-de-familia-da-ex-mulher-no-interior-do-pr.htm#fotoNav=107 Acesso em: 2 ago. 2016). 

A contextualização do soldado perfeito demanda padrões de desempenho que não se manifestam apenas por ocasião do processo de seleção e treinamento de alta performance, por mais eficiente que eles sejam. A despeito de representar um ativo importante, para que possam se valer de toda sua competência, os recursos humanos carecem de apoio logístico e protocolos de atuação especializados para cada situação específica. Nesse contexto, configura-se o tripé que alicerça o ofício do ElmOpEsp: capacitação; logística apropriada; protocolos operacionais.
Outra questão fundamentalmente importante diz respeito ao perfil do ElmOpEsp. Por ser um profissional altamente especializado, que em determinadas situações envolve-se em operações altamente sensíveis, o recomendável é que seu engajamento ocorra apenas em operações que sejam compatíveis com suas habilidades não convencionais. Embora os ElmOpEsp disponham de competência para desempenhar funções de natureza convencional, e se esmerem para fazê-lo da melhor forma possível (por ocasião das sensações de comprometimento e lealdade próprios de seu ethos), empregá-los em operações convencionais representa um desperdício de capacidade, uma vez que suas habilidades e conhecimentos singulares estão sendo subutilizados.
Para que a comunidade OpEsp atraia o perfil de indivíduos dotados com o conjunto de atributos, que após serem devidamente lapidados, produzam a mão de obra altamente especializada requerida pelas unidades militares de elite, é imprescindível que os órgãos governamentais que as patrocinam, sejam eles da natureza federal ou estadual, promovam políticas de valorização, que considerando as habilidades superiores desenvolvidas por estes profissionais, acarretem reconhecimento e gratificações (financeiras) compatíveis com as exigências das atividades singulares às quais se destinam.  




sábado, 30 de julho de 2016

A Cultura das Operações Especiais Expressa no Simbolismo da “Caveira”

Texto elaborado por Rodney Alfredo Pinto Lisboa com base no artigo escrito originalmente por Onivan Elias de Oliveira, Tenente Coronel da Polícia Militar da Paraíba e primeiro Comandante do GET (Grupo Especial Tático).

Fotografia 1: Integrantes do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) do Rio de Janeiro realizam operação de combate ao tráfico de drogas no complexo de favelas da Rocinha, Rio de Janeiro. (Fonte: Disponível em: http://exame.abril.com.br/topicos/bope Acesso em: 28 jul. 2016).

A semiótica (ciência destinada à promover o estudo dos símbolos) atribui à caveira uma diversidade de significados, sendo o mais usual àquele que se refere à mudança ou transformação, representando o caráter transitório da vida (mortalidade). Por estar associada à morte, várias culturas, por temerem-na em virtude de aludir à ideia de finitude, atribuem à caveira representações inerentes ao perigo, destruição, extermínio ou óbito. 
O estereótipo de perigo e morte sugerido pelo simbolismo da caveira foi muito bem empregado pelos piratas, que entre os séculos XVI e XVIII promoviam saques e pilhagens à embarcações e cidades costeiras em busca de riqueza e poder. Embora existam diferentes variações de bandeiras representativas da atividade pirata, àquela que mais se destaca é a bandeira denominada Jolly Roger (caveira posicionada acima de dois ossos sobrepostos cruzados em fundo negro). O motivo que os levava a ostentar esse símbolo tremulando sobre os mastros de suas embarcações era incutir em suas vítimas a sensação de medo motivado pela noção de ameaça e crueldade. 
Embora a utilização da caveira como símbolo das unidades militares de elite possa ser observada, sobretudo, nos uniformes trajados pelas Divisões Totenkopf (Crânio da Morte) da Waffen SS (unidade de elite do Partido Nazista alemão) durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), essa representação simbólica já havia sido envergada na Prússia (integrada ao Império Alemão em 1871) pelo Regimento Hussardo de Cavalaria durante o reinado de Frederico II (Frederico, o Grande) entre 1740-1786.  

Fotografia 2: Oficial (Segundo Tenente) das Divisões Totenkopf trajando a insígnia da caveira na gola direita da túnica do fardamento e na banda do quepe. (Fonte: Disponível em: http://derwulf.tumblr.com/ Acesso em: 28 jul. 2016).

Em 1944, na iminência da derrota alemã em território francês, as tropas aliadas avançavam sobre os soldados nazistas que, sem alternativa, tentavam retornar para a Alemanha. Particularmente as Waffen-SS, devido às atrocidades cometidas no decorrer da guerra, tornaram-se o alvo preferencial dos Commandos franceses (tropa formada por voluntários da Marinha, Fuzileiros Navais e Exército organizados conforme modelo britânico). Nesse contexto, quando assediavam um quartel da tropa de elite nazista, um operador Commando se deparou com a mesa de um oficial alemão, na qual havia uma caveira que lhe servia de adereço. Sem hesitar, o operador sacou sua adaga de combate Fairbairn-Sykes cravando a lâmina delgada no ornamento como símbolo da vitória sobre as tropas que causavam à morte. Essa passagem, sem qualquer evidência histórica, baliza o início do mito, transmitido por tradição oral, da “Faca na Caveira”.
No Guerra do Vietnã (1955-1975), o símbolo da caveira foi utilizado juntamente com o ás de espadas (carta de maior valor entre os naipes do baralho) na condução de guerra psicológica empreendida contra os soldados norte-vietnamitas. Valendo-se da superstição característica da região, as tropas norte-americanas tinham o hábito de posicionar o ás de espadas sobre os corpos dos inimigos como uma representação da morte. No decorrer o conflito, o SOG-MACV (Grupo de Operações Especiais-Comando Militar de Auxílio ao Vietnã), unidade do Exército dos EUA responsável por conduzir Ações Indiretas no Vietnã do Norte, Laos e Camboja, assumiu a caveira como símbolo. 

Figura 1: O personagem "Justiceiro" da editora Marvel Comics representado pela arte do quadrinista Jim Lee. A imagem da caveira estampada no peito do personagem foi adotada pelo SEAL Team 3 durante a GWOT (Guerra Global contra o Terror) conduzida no Iraque entre 2003 e 2011. (Fonte: Disponível em: http://www.cheatsheet.com/entertainment/marvel-the-punisher-netflix.html/?a=viewall Acesso em: 28 jul. 2016).


A Guerra do Vietnã serviu como fonte de inspiração para a cultura das histórias em quadrinhos estadunidense, explorando a simbologia da caveira em favor de um personagem controverso. Criado em 1974 por Gerry Conway (roteirista), John Romita Sr.(desenhista) e Stan Lee (editor), o "Justiceiro" (Punisher) era um veterano do Vietnã, ex-integrante da Marine Force Reconnaissance (Força de Reconhecimento dos Fuzileiros Navais), que motivado pelo brutal assassinato de sua esposa e filhos durante um tiroteio entre grupos mafiosos rivais, torna-se um vigilante que lança mão de suas habilidades singulares para desencadear uma guerra violenta contra o crime. Como símbolo de sua empreitada, Frank Castle (Justiceiro) adotou um uniforme predominantemente negro, com uma enorme caveira estampando-lhe o peito, em referência à justiça representada por ele por ocasião das mortes que causa. O personagem tornou-se tão popular entre as FOpEsp norte-americanas, que o SEAL Team 3 da Marinha adotou a caveira, ostentada em uniformes e veículos (Humvees), como símbolo informal da unidade, conforme enfatizado no livro "Sniper Americano" escrito pelo ex-operador Chris Kyle, considerado o atirador de precisão mais letal da história militar dos EUA.

Figura 2: Emblemas de algumas tropas especiais brasileiras que utilizam-se da simbologia da caveira. Partindo da esquerda para a direita e de cima para baixo: insígnia da Ação de Comandos (Exército); brevê do ComAnf (Fuzileiros Navais); distintivo do BOPE (PMMT); distintivo do GATE (PMPB); distintivo do BOPE (PMRJ); Curso OpEsp (PMMG); distintivo do BOPE (PMPI). (Fonte: Elaborado pelo autor). 

No Brasil, a tradição de empregar a caveira como símbolo de unidades e/ou atividades militares remonta a década de 1960, quando o Exército Brasileiro, adequando-se à conjuntura internacional, constituiu, em 1968, o Destacamento de Ação de Comandos, então subordinado à Companhia de Forças Especiais da Brigada de Infantaria Paraquedista. Na esteira dessa tendência, o Batalhão de Operações Especiais de Fuzileiros Navais (Batalhão Tonelero), criado em setembro de 1971, adotou a caveira no brevê de identificação que caracteriza a atividade dos ComAnf (Comandos Anfíbios). Por sua vez, algumas tropas especiais das Forças de Segurança Pública nacionais (consideradas como Forças Auxiliares das FFAA [Forças Armadas]), incorporaram a caveira em suas representações simbólicas como artifício que lhes confere a sensação de pertencer a uma sociedade (OpEsp) que é reconhecida pelas habilidades que fogem aos padrões de convencionalidade, respeitada por possuir um ethos próprio, reverenciada pela excelência na execução das exigentes tarefas que lhes são destinadas.