quarta-feira, 14 de junho de 2017

Bushido: Estabelecendo Correlações entre o Ethos das Operações Especiais e o Código de Ética Samurai

Texto elaborado por Rodney Alfredo P. Lisboa


Fotografia 1: Cena do filme "Falcão Negro em Perigo" (2001) retratando a atitude (compaixão, lealdade e sacrifício pessoal) de um operador do 1º Destacamento Operacional de Forças Especiais-Delta (1st Special  Forces Operational Detachment-Delta [1st SFOD-D]) do Exército dos EUA em conformidade com os princípios morais do Bushido. (Fonte: Composição elaborada por Rodney Alfredo P. Lisboa). 

Anos atrás, quando tive a oportunidade de trabalhar como professor universitário em cursos de Graduação em Educação Física, assumi a incumbência de ministrar disciplinas que promoviam uma introdução às Artes Marciais para os alunos de diferentes instituições de ensino superior. Como um admirador da cultura japonesa, sobretudo no período que baliza a formação, ascensão e derrocada da classe Samurai (que se estende do século VIII até a segunda metade do século XIX), imaginei ser àquela uma oportunidade ímpar para apresentar aos discentes, não apenas o prelúdio de um conjunto de técnicas inerentes a uma modalidade de luta específica, mas um vislumbre dos peculiares aspectos morais que norteavam os pormenores diários da nobre classe guerreira japonesa. Na minha concepção, como uma forma de contribuir para a formação pessoal e profissional dos alunos, seria relevante que eles percebessem as discrepâncias existentes no processo de constituição do caráter de ocidentais (excessivamente ligados às questões que lhes são extrínsecas) e orientais (mais preocupados com temas que lhes são intrínsecos). Naquela época, na tentativa de estabelecer uma relação da classe Samurai com atividades que fossem familiares aos discentes, fui levado a escrever um artigo intitulado:

"A Evolução Histórica do Kendo (a Esgrima Japonesa) e sua Afirmação como Modalidade Esportiva”

Embora minha experiência como docente nesta área de formação tenha se prolongado por apenas seis anos, àquela oportunidade me permitiu uma percepção de mundo sem a qual eu jamais atingiria em virtude de minha origem (ocidental).
Tempos depois, já na qualidade de Historiador Militar, ao me impor o desafio de estudar diferentes questões relacionadas às Operações Especiais (OpEsp), chamou-me atenção o conjunto de hábitos e comportamentos que orientam o caráter moral dos membros da comunidade OpEsp. Fruto da cultura, educação e tradição, sendo assimilados por observação e experiência, a forma como os membros dessa comunidade específica pensam e agem estão em tamanha conformidade com o “modo de ser” da nobre classe Samurai, que não devem ser analisados apenas superficialmente ou considerados como simples coincidência.


Fotografia 2: Imagem obtida em 2009, quando o Prof. Ms. Rodney Alfredo P. Lisboa ministrava aulas de introdução às Artes Marciais para acadêmicos de cursos de Graduação em Educação Física. Na ocasião da foto, a técnica apresentada aos alunos considerava os movimentos de embainhar e desembainhar a Katana (tradicional espada japonesa) característicos do Iaido. (Fonte: Acervo de Rodney Alfredo P. Lisboa).

Especificamente no que concerne aos Elementos de Operações Especiais (ElmOpEsp), a familiaridade com a classe guerreira japonesa tem início a partir da tradução do termo “Saburu’, palavra da qual deriva a expressão “Samurai”, e cuja tradução refere-se “àquele que serve”. Nesse sentido, enquanto os Samurais originalmente eram agricultores que por dever de vassalagem serviam obstinadamente à seu senhor feudal (Daimyo), os ElmOpEsp são militares altamente especializados que por dever moral servem ao seu país com a mesma tenacidade.
É importante esclarecer que na sociedade feudal japonesa os Samurai emergiram das províncias do Japão combatendo ao lado de seus senhores (mestres) em constantes guerras entre clãs rivais por disputa de território, para tornarem-se a classe dominante no período entre os séculos XV e XIX quando da instauração do sistema de Xogunato (sistema de governo chefiado por um Xogun [representante da classe Samurai]).
Treinados militarmente desde a infância, os Samurai formavam uma casta hereditária respeitadíssima, evidenciada não apenas pela exímia habilidade em manipular a espada (Katana), mas, principalmente, pelo rígido código de honra (Bushido) que incutia o espírito marcial ao vassalo propondo-lhe servir ao seu senhor com o máximo de empenho, lealdade, bravura e, se preciso fosse, segui-lo até a morte.


Fotografia 3: Cena do filme "O Último Samurai" (2003) destacando o metódico e obstinado treinamento dos Samurai no intuito de alcançar a excelência física e mental no manejo da Katana. (Fonte: Disponível em: https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/70/29/e2/7029e2ece3078053d69babc0fbb33569.jpg Acesso em: 12 jun. 2017).

O que precisa ficar claro em relação ao modo de combater do Samurai, é que diferente do método de esgrima praticado na Europa, no qual os adversários trocavam golpes de espada visando um movimento de estocada, no Japão a espada era manejada em combate visando a execução de um único golpe de ceifa, preciso, cortante, mortal. 
Elaborado a partir de um intrincado amálgama de correntes filosóficas (Xintoísmo, Budismo, Taoísmo e Confucionismo) que permitiam o aprimoramento da classe Samurai, o Bushido, cuja tradução literal significa “Caminho do Guerreiro”, caracterizava-se por ser um código de princípios morais e virtudes militares que os membros da aristocracia guerreira japonesa (sejam eles homens ou mulheres) deveriam aprender a observar desde a mais tenra infância. Sem nenhum ensinamento escrito, o Bushido era transmitido apenas oralmente de modo a valorizar qualidades como: honra, lealdade, excelência no emprego das armas, simplicidade, destemor, além de resistência às mais duras provações físicas e psicológicas.
Embora as atividades conduzidas pelos ElmOpEsp possam ser associadas mais diretamente à figura do Ninja devido aos métodos não convencionais por eles adotados no período que corresponde ao Japão feudal, o que nos incita a reflexão neste momento não são os métodos operacionais outrora empregados, mas a reunião de princípios éticos que norteavam o caráter e a conduta da elite guerreira japonesa. Sobre os Ninjas cabe aqui desconstruir um estereótipo constituído na sociedade ocidental contemporânea. No contexto das guerras feudais japonesas, o Ninja não deve ser encarado como um agente movido pela perversidade para, invariavelmente, antagonizar a classe Samurai. Na verdade, conforme a orientação política do senhor feudal a quem deviam obediência, ambos (Samurai e Ninja), cada um em sua área de especialidade (Samurai [Confronto Direto); Ninja [Confronto Indireto]) podiam combater na qualidade de aliados ou inimigos. 


Figura 1: As sete virtudes fundamentais do código de princípios morais empregado de forma resoluta pelos guerreiros Samurai. (Fonte: Arte elaborada por Rodney Alfredo P. Lisboa).

Conforme é possível observar nesta breve apresentação, muitos dos princípios morais que outrora distinguiam o Bushido são coincidentes com o ethos adotado pelas FOpEsp contemporâneas. Qualidades como honra, lealdade, camaradagem, coragem, determinação, patriotismo, comprometimento, orgulho, disciplina e excelência profissional, que se fazem notar diariamente em cada ElmOpEsp e criam fortes laços entre eles, também eram comuns entre os integrantes da classe Samurai. Nesse contexto, ambas as comunidades se caracterizam pela observância ao cumprimento do dever e a extrema lealdade para com seus pares, sendo a desonra a maior de todas as punições.
Ainda que o presente texto concentre sua atenção na conjunção de princípios morais que balizavam a conduta do guerreiro Samurai, devotado física e mentalmente para aprimorar a arte da guerra, preparando-o para administrar as adversidades da vida e a iminência da morte, o estudo do modo de guerrear do Samurai tem muito a ofertar para a comunidade OpEsp no que concerne ao autoconhecimento e ao autocontrole (físico e mental) inerentes à condução do enfrentamento. Separados pelo tempo e pelo espaço, o ElmOpEsp e o guerreiro Samurai, como nobres representantes da nata militar de suas respectivas épocas, apresentam conexões ainda difusas que merecem ser examinadas em toda sua profundidade. Assim, as comparações expressas nesse texto correspondem apenas à ponta de um grande iceberg.


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Vídeo 1: A flor mencionada no vídeo acima é denominada Sakura (Flor de Cerejeira), considerada como a flor nacional do Japão e o símbolo da classe Samurai. 


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Vídeo 2: Conforme retratado no vídeo acima, para o ElmOpEsp o cumprimento do dever e a lealdade para com seus pares sobrepõe-se a tudo, incidindo em tamanho desprendimento que leva o militar ao sacrifício pessoal.



Para saber mais sobre o ethos das OpEsp acesse a postagem correspondente:
http://fopesp.blogspot.com.br/2016/06/o-ethos-das-operacoes-especiais.html






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